Loja Agrotec

Instagram RSS feed

Agrotec

COTR pede execução da estratégia da água após anúncios de novos apoios ao regadio

  • 12 outubro 2026, segunda-feira
  • Rega

Primeiro Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura revela consumo de água 16% abaixo da dotação de referência na amostra analisada.

 COTR

O Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR) defende que a estratégia “Água que Une” deve traduzir-se em investimentos com financiamento, responsabilidades e calendários de execução definidos. A posição foi reforçada durante o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, em Beja, onde o Ministro da Agricultura e Mar anunciou a reabertura dos apoios à eficiência hídrica e o diretor-geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) anunciou a reativação do Conselho Nacional do Regadio.

Organizado pelo COTR sob o tema Água para Produzir o Futuro: Resiliência, Eficiência e Inteligência nos Recursos Hídricos, o encontro reuniu, durante dois dias, mais de 35 intervenientes da política, agricultura, empresas, ciência e tecnologia. O Congresso acolheu também a apresentação do primeiro Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura.

Para Gonçalo Morais Tristão, presidente do COTR, Portugal precisa de avançar em três frentes: continuar a melhorar a eficiência hídrica nas explorações, modernizar as infraestruturas de armazenamento e distribuição e assegurar capacidade financeira e institucional para executar os investimentos. As melhorias alcançadas pelos agricultores devem ser acompanhadas pela redução das perdas nas redes e pela resposta às limitações de armazenamento.

 

Apoios à eficiência hídrica e Conselho Nacional do Regadio

O Ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, anunciou a reabertura dos apoios aos agricultores para investimentos em eficiência hídrica e referiu que estão em execução mais de 700 milhões de euros em investimentos agrícolas relacionados com a água.

O governante defendeu o recurso a várias fontes de financiamento, considerando que as necessidades do país não podem depender apenas da Política Agrícola Comum. Destacou ainda a modernização da agricultura portuguesa nas últimas duas décadas e defendeu que a crescente escassez e irregularidade da água devem refletir-se nas prioridades e nos instrumentos financeiros da União Europeia.

 

Por seu turno, Eduardo Reis, diretor-geral da DGADR, anunciou a reativação do Conselho Nacional do Regadio, com a intenção de realizar uma reunião até ao final de outubro. Para o COTR, este espaço de articulação entre a Administração Pública e o setor deverá permitir um acompanhamento regular das políticas e dos investimentos, com prioridades, responsabilidades e prazos claros.

 

Barómetro: consumos abaixo da referência na amostra analisada

O primeiro Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura indica que, em 2025, a medida Uso Eficiente da Água abrangia 118,1 mil hectares.

Nas quatro culturas avaliadas (olival, amêndoa, vinha e milho), o consumo médio correspondeu a 84% da dotação padrão definida pelo INE para o Alentejo. No conjunto analisado, o volume de água utilizado ficou cerca de 18 milhões de metros cúbicos abaixo da referência.

Sete em cada dez contadores registaram consumos iguais ou inferiores à referência: 94% na amêndoa, 80% na vinha, 78% no milho e 65% no olival.

O Barómetro acompanha também a adesão à medida. Em 2023, primeiro ano do PEPAC, a área abrangida atingiu 129,5 mil hectares, mais 63% do que os 79,2 mil hectares registados no início do PDR2020, em 2015. Em 2025, 92% da área apoiada estava na classe de regante mais exigente e 87% utilizava rega localizada, face a 60% no conjunto da área regada do Continente. A medida abrangia ainda cerca de metade das áreas regadas de olival e amêndoa declaradas no Pedido Único.

Os indicadores assentam em informação oficial reunida pelo Observatório Nacional do Regadio, plataforma pública da FENAREG e do COTR, desenvolvida pela CONSULAI, que harmoniza dados do INE, IFAP, DGADR e FENAREG.

O COTR pretende atualizar o Barómetro e alargar progressivamente a análise. Gonçalo Morais Tristão sublinha que a avaliação da eficiência deve considerar, além dos equipamentos instalados, os consumos efetivos, a produtividade e as condições de cada exploração.

 

Alterações climáticas reforçam urgência da adaptação

O projeto «Conhecer para Prever o Futuro», desenvolvido pela DGADR com o COTR e a colaboração do Instituto Superior de Agronomia, aponta para um possível aumento de até 27,5% das necessidades de água para rega entre 2071 e 2100, no cenário mais desfavorável e mantendo-se a atual situação agronómica. Para o COTR, a projeção reforça a urgência de reduzir perdas, gerir melhor as reservas e adequar a rega às necessidades das culturas.

 

Macário Correia destaca planeamento e execução

A implementação da estratégia «Água que Une» marcou a Grande Entrevista a José Macário Correia, presidente da AdP AQUA, conduzida pela jornalista Teresa Silveira no primeiro dia do Congresso. O responsável destacou a necessidade de recuperar capacidade de planeamento, coordenar entidades e utilizações e preparar os investimentos antes de se instalarem situações de escassez.

Neste contexto, Gonçalo Morais Tristão reforçou que a eficiência nas explorações deve ser acompanhada pela modernização das infraestruturas coletivas, para responder às perdas nas redes, às limitações de armazenamento e aos atrasos nos investimentos estruturantes.

 

Jovens agricultores: água, formação e viabilidade económica

O painel “Nova geração, novo regadio” reuniu Afonso Bulhão Martins e Cristóvão Ferreira, empresários agrícolas; Firmino Cordeiro, diretor-geral da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP); e Alexandra Tomaz, da ESA/UP Beja. Moderado pelo radialista Luís Matias, o debate analisou a disponibilidade de água, a formação e o acesso à tecnologia como condições para atrair e fixar novos produtores e promover o desenvolvimento dos territórios.

Firmino Cordeiro assinalou que a maioria dos projetos de instalação procura incorporar regadio em pelo menos parte da exploração, pelo seu impacto na produtividade, na competitividade e na qualidade. O painel destacou que a renovação geracional exige, além dos apoios à instalação, acesso previsível à água, infraestruturas adequadas, conhecimento técnico e condições económicas para criar explorações sustentáveis.

 

Agricultura e ambiente em diálogo

O Frente a Frente entre João Joanaz de Melo, do GEOTA, e Gonçalo Santos Andrade, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), moderado pela jornalista Teresa Silveira, colocou em debate a relação entre produção agrícola, disponibilidade hídrica e proteção dos ecossistemas, bem como os critérios de utilização da água nos territórios mais sujeitos a escassez.

O formato permitiu confrontar diferentes perspetivas sobre as necessidades da agricultura e os limites ambientais, procurando identificar contributos do planeamento, da eficiência e do conhecimento científico para decisões mais equilibradas.

 

Inteligência artificial ao serviço da decisão no regadio

O debate Da gota ao dado: como a IA está a transformar o regadio contou com a presença de Vitor Rodrigues, CEO da Magic Beans; Ricardo Santos Lopes, da Capgemini; Pedro Leal da Costa, da Olivogestão; e Rui Veríssimo Baptista, da FENAREG, com moderação da jornalista Alexandra Costa.

O painel analisou o contributo dos sensores, da telemetria, dos modelos de previsão e da inteligência artificial, identificando desafios associados à qualidade dos dados, ao custo das soluções, à adaptação às explorações e à confiança dos utilizadores.

A aproximação entre os modelos tecnológicos e o conhecimento dos agricultores foi uma das ideias centrais: divergências entre os dados e a observação no terreno devem ser compreendidas para melhorar a decisão. Para o COTR, estas ferramentas devem apoiar o conhecimento agronómico, antecipando necessidades e reduzindo aplicações desnecessárias, preservando a capacidade dos agricultores de avaliar e questionar as recomendações.

 

Governação da água: responsabilidades, financiamento e continuidade

O painel «Quem decide o futuro da água em Portugal?», moderado pelo radialista Luís Matias, contou com Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP; Carlos Braziel David, vice-presidente da AdP; Luís Mesquita Dias, presidente da AHSA; e Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS).

No painel «A Grande Estratégia da Água para Portugal», moderado pela jornalista Teresa Silveira, participaram Eduardo Reis, diretor-geral da DGADR; Nuno Serra, secretário-geral da CONFAGRI; José Núncio, presidente da FENAREG; e Ana Paula Moreira, da EDP.

Os dois debates abordaram as responsabilidades, as prioridades e os modelos de governação, identificando a articulação entre entidades, a clarificação de competências, o financiamento e a integração dos diferentes usos como condições para executar uma política nacional da água.

 

As sessões evidenciaram ainda que a segurança hídrica afeta a produção agrícola, o abastecimento das populações, a energia, os ecossistemas e a manutenção de emprego e população nos territórios mais vulneráveis. Foram também salientados o valor estratégico do setor agroalimentar para Portugal e a necessidade de continuidade das políticas para além dos ciclos eleitorais, com a agricultura a ocupar um lugar prioritário na ação governativa.

 

Investigação, inovação e homenagem a Luís Santos Pereira

O programa incluiu 14 comunicações sobre projetos de investigação e inovação, intervenções internacionais dedicadas à digitalização e ao uso eficiente da água e o estudo EDIA/COTR sobre monitorização dos solos nos blocos de rega do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

O Congresso prestou ainda uma homenagem «Personalidades do Regadio» ao professor Luís Santos Pereira, reconhecendo o seu contributo para a rega e o regadio em Portugal e contou com um jantar com uma Keynote sobre O vicio dos fundos europeus, a cargo do Professor Nuno Palma.

Para o COTR, os anúncios feitos no Congresso abrem caminho a um maior investimento e diálogo no setor. A prioridade é agora assegurar continuidade, financiamento e resultados verificáveis no terreno.

O Congresso terminou com uma visita às instalações da EDIA, Centro Alqueva. 

A próxima edição do Congresso Nacional de Rega e Drenagem terá lugar em Ponte de Lima, em 2028.