Vacas comem Erva Servida em Tabuleiros - Forragem Hidropónica

Num período de grande instabilidade para o setor leiteiro, com flutuações perigosas do preço do leite em torno da linha vermelha, e um constante aumento do custo dos fatores de produção, sobretudo dos alimentos concentrados, têm surgido, cada vez mais, vozes a favor do retorno à erva como alimento base dos bovinos de produção, mesmo em sistemas intensivos.

Com os argumentos da redução significativa dos problemas sanitários, sobretudo podais, mamites, melhoria geral do bem-estar animal e até um custo de produção inferior ao custo de aquisição de alimentos concentrados por teor de nutriente e muito mais económicos do que a produção de silagem demilho por unidade proteica, têm vindo a ser conquistados cada vez mais adeptos para a Forragem Verde Hidropónica.
Além destas vantagens, no Alentejo, onde é difícil a produção estival de erva sem o dispêndio de grande quantidade de água e energia, este sistema tem vindo a encontrar fácil justificação e acrescidos interessados.

Os sistemas mais comuns de forragem hidropónica são, na verdade, sistemas onde se dá aos animais “erva”recém germinada, normalmente cereais, sobretudo cevada, germinada em tabuleiros e dada aos animais até 8 – 10 dias após a emergência das folhas, num sistema “wholefood”, pois os animais comem folhas, restos da semente e também as raízes que, como estão isentas de terra, são comidas pelo gado com igual prazer.
Em Portugal existem já duas opções para os criadores. Ou instalam na sua própria exploração um sistema de produção de forragem hidropónica, dimensionada à sua medida, para o que existem empresas que oferecem sistemas chave na mão, ou então adquirem todos os dias, ou sempre que necessário, forragem produzida por empresas especializadasnesse serviço e que se responsabilizam pela entrega domiciliária.
A percentagem de forragem hidropónica na dieta dos animais irá, naturalmente, depender da fase do ciclo produtivo, idade do animal e necessidade do criador, sendo que a maioria dos nutricionistas tem recomendado a suplementação dos animais com 5 a 15 kg de forragem hidropónica por dia, sobretudo em substituição do alimento concentrado, justificado pelo alto teor de proteína (20 a 30%) e energia facilmente metabolizável, mas há produtores que fundem já a sua produção neste tipo de alimento, uma vez que o seu custo de produção rivaliza com o custo da silagem de milho.

A AGROTEC foi visitar dois dos mais conhecidos produtores de Forragem Verde Hidropónica em fases de vida diferentes e com estratégias distintas, que nos abriram as suas portas.

Baixo custo de instalação e crescimento acelerado

Pressionada pela necessidade, a professora de biologia Gabriela Pereira, como tantos outros colegas, encontrou na agricultura uma nova saída profissional. Insatisfeita com a instabilidade das colocações e dos horários, fez uma pesquisa dos nichos de mercado existentes no norte de Portugal e das oportunidades de investimento em minifúndio e decidiu rapidamente optar pela produção em hidroponia.
Cedo se apaixonou pela produção de germinados, paixão que rapidamente se onsolidou em amor quando se apercebeu que ainda não tinha produto e já tinha uma vasta carteira de clientes potenciais.
Atualmente já em produção, e tendo apenas iniciado em janeiro de 2014, o sucesso da sua micro empresa sediada na Quinta da Portelinha, em Gemieira, Ponte de Lima, fazem com que sinta já necessidade de expandir as suas instalações, nomeadamente para outros concelhos do norte, de forma a satisfazer a sua lista de clientes, que não para de aumentar, com inúmeros produtores em lista de espera.
A confiança é tanta que o marido da empresária, Rogério Monteiro, designer de profissão, pretende abdicar também do seu emprego para se dedicar totalmente à empresa e à gestão de clientes.

A empresária assume que, apesar da inspiração noutras empresas, todo o sistema foi concebido e desenhado por si. Uma simples estufa hortícola de 350m2 juntamente com um armazém isolado termicamente com 100m2, bancadas, prateleiras, tabuleiros e um simples sistema de fertirrega foi o necessário para montar uma unidade capaz de servir diariamente cerca de 400 animais, tendo por base um arraçoamento de 10kg/animal (um tabuleiro). Todo o trabalho requer apenas 1 pessoa, que além de todas as tarefas ligadas ao processo produtivo ainda faz a distribuição em casa do cliente num raio de 20km.
A produção segue três fases: Embebição (24h), repouso (na obscuridade 48h) e germinação em ambiente iluminado por 7 a 8 dias.
Nesta exploração está instalada a capacidade para produzir, todos os dias, de 2 a 4 toneladas de forragem hidropónica (germinados).
A empresária admite melhoramentos nos investimentos futuros, nomeadamente no controlo da temperatura, a fim de evitar os picos de calor, no verão, e a paragem de crescimento, no inverno. Curiosamente, concluiu que, no seu caso, não existe vantagem na iluminação artificial.

A produção tem ainda a certificação para produção biológica, o que permite ampliar o leque de clientes e apresentar um produto totalmente isento de qualquer produto químico.
A empresária considera uma aposta ganha, estando já em implementação mais duas unidades fora do conselho, neste caso integradas nas próprias instalações dos clientes finais, mas planeando a construção de novas unidades de produção no mesmo sistema de produção com entrega ao domicílio.

Alimentação viva o ano todo a baixo custo

Há 25 anos, o economista Jorge Zambujo rumou ao Alentejo para “apostar numa fábrica a céu aberto”. Com uma ligação à agricultura desde jovem, no Monte da Torre, em Arraiolos, a escassos quilómetros de Évora, a agropecuária tornou-se no seu empreendimento.
A hidroponia tem sido, desde então, a resposta para uma alimentação saudável e a custos reduzidos para o seu gado.
O seu primeiro contacto com produção de Forragem Verde Hidropónica (FVH), deu-se há cerca de 40 anos através do famoso programa televisivo do engenheiro Sousa Veloso, que apresentou a Forragem Verde Hidropónica como uma forma simples e uma boa alternativa para a alimentação animal face às alterações climáticas.
Quando adquiriu a propriedade, procurou estudar e desenvolver um plano para exploração da mesma. A FVH constituía já nesse tempo uma solução, mas as estufas que encontrou eram de pequena dimensão, não mais de 1000kg por dia, e de custo bastante elevado face à capacidade de produção. Jorge Zambujo afirma que “foi uma moda naquele tempo e as verbas da integração europeia fizeram com que muita gente comprasse estufas que, pela sua pequena dimensão, 500 a 1000kg por dia, não chegaram a constituir solução, motivo porque muitas se encontram paradas atualmente”.

No Monte da Torre, Jorge Zambujo percebeu que a hidroponia poderia ser uma solução, mas com uma abordagem e metodologia diferente - tinha que produzir mais: estudou as várias soluções de estufas para produção de forragem verde hidropónica existentes a nível mundial e arrancou com a sua própria estufa.
Durante mais de 5 anos, o economista dedicou-se aos estudos de investigação, aprendizagem e experimentação que o levaram a arrancar com o seu próprio processo produção de FVH. Nascem assim as Estufas de FVH – Monte da Torre, onde também é produzido gado bovino da raça Blonde D’Aquitaine. Em 100m2 são produzidos 4000kg de forragem hidropónica por dia, que permitem a engorda de 400 bovinos: “tanto como a produção de 400 hectares de terreno a produzir feno”, adianta o empresário. As Estufas estão estruturadas para trabalhar com qualquer dimensão de erva, sendo possível produzir lado a lado forragem com 15, 30, ou mais centímetros de altura, bem como fazer variar o tempo de germinação e crescimento dos vários tipos de forragem.

Hoje, já em plena fase de comercialização, as estufas Monte da Torre têm uma carteira de encomendas que cobre quase todo o nosso país, constituindo uma solução para os produtores de leite e carne no norte do país, solucionando a pequena dimensão das propriedades, nas zonas de produção de queijo são uma solução para evitar picos de sazonalidade, de forma a manter a produção uniforme ao longo de todo o ano.

Nos Açores e na Madeira, apesar do verde, o mesmo nunca é suficiente para otimizar as suas explorações. Jorge Zambujo diz-nos que para Cabo Verde, onde esteve presente na Feira Internacional do Mindelo, “a FAO, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação recomenda, para aquele país, a adoção da produção de FVH, que o tornaria autossuficiente na produção de carne, leite e até poderá exportar para países africanos vizinhos”. O economista conta a qualquer momento começar a exportar estufas.

As vantagens da Forragem Verde Hidropónica são várias: financeiramente, explica Jorge Zambujo, “a manutenção de uma vacada a campo com cerca de 200 vacas, suplementadas com 4 kg por dia de ração em tacos resulta num custo mensal de 7200 euros por mês. Utilizando 10 kg por dia de Forragem Verde Hidropónica na mesma vacada, o custo é de 3000 euros por mês.” Outras vantagens, para além do bem-estar animal e qualidade da carne, são a diminuição dos recursos e dos riscos de armazenagem.

No Alentejo, onde, por limitações diversas, escasseiam muitas vezes alimentos para dar aos animais, a forragem verde hidropónica será, num futuro próximo, a solução face às exigências da Política Agrícola Comum. Jorge Zambujo considera que “a atribuição futura de subsídios em função da produtividade animal fará com que os agricultores não possam mais pensar que existem raças de animais que se alimentam de ‘pedras’ ou que, como Deus é grande, há–de chover, pois na produção de feno há que decidir, em setembro ou outubro, o que se pretende colher em maio ou junho e na produção de silagem de milho decide-se em abril ou maio o que se vai colher em setembro ou outubro, e sempre a olhar para o céu, à espera que não falte água ou não haja água a mais, o que dificulta o desenvolvimento das plantas”. Com a solução encontrada através das estufas de FVH – Monte da Torre, Jorge Zambujo confessa-nos que está já a aumentar o efectivo pecuário, e com algum humor, lá nos vai dizendo que Arraiolos, mundialmente conhecido pelos seus belos tapetes, corre o risco de passar também a ser referido como o “Coração da Raça Blonde d’Aquitaine” em Portugal.

In AGROTEC 12.