Cultura do Espargo: das Técnicas de Produção à Importância Económica

Artigo Técnico

INTRODUÇÃO

O espargo é uma das hortícolas mais interessantes para exploração em áreas de minifúndio e agricultura de base familiar. Trata-se de uma cultura de mão-de-obra intensiva e exigente a este nível, mas simultaneamente muito produtiva e flexível em termos de preferências climáticas e de solo, podendo ser, se bem explorado, muito rentável.
Do ponto de vista económico, a cultura do espargo, especialmente o destinado ao consumo em fresco, tem-se notabilizado em Espanha como uma das mais interessantes, e onde a cultura tem assistido a um grande desenvolvimento técnico e económico.

Conhecido por quase todos, é apreciado como hortícola nas mais requintadas mesas, sendo presença obrigatória nas cozinhas do centro europeu. Pouco popular em Portugal em virtude do seu preço, é esta uma das razões que o torna um produto agrícola muito interessante para exportação.
No mercado o espargo apresenta-se verde ou branqueado, embora sendo produzido pe¬las mesmas plantas obtém-se produtos de características diferentes que acabam agradando a diferentes mercados e consumidores e, pesar de ser de cultura relativamente simples, viu sua técnica de produção desenvolver-se muito nos últimos anos, especialmente na produção de espargo branco e fora de época.
Por todas as expostas razões se justifica este, que será o primeiro de dois artigos, em que se pretende apresentar, de forma concisa, esta interessante cultura, cuja expansão é de interes¬se incentivar, e num segundo artigo as principais práticas e inovações culturais envolvendo a produção de espargo.

De referir ainda que, em Portugal, ocorre naturalmente o “espargo-bravo” estrepe ou corruda, objeto de intensa recoleção. Este espargo é mais aromático do que o cultivado, embora muito menos produtivo recebe cotações mais elevadas.

FACTOS BOTÂNICOS E IMPORTÂNCIA ECONÓMICA

O espargo hortícola, Asparagus officinalis, pertence à controversa família das Asparagaceas, também incluída, por alguns autores, na família Liliáceae e que inclui, além desta, algumas outras espécies de interesse alimentar e, principalmente, ornamental, sendo diversas exploradas para a produção de “verdes” para a composição de arranjos florais e ornamento de jardins.
A forma hortícola do espargo teve origem nas regiões mediterrâneas da Europa e parte da Ásia, onde é cultivado desde há mais de 2000 anos. As variedades agora existentes provêm de seleções levadas a cabo na Holanda no século XVIII e em França, em Argenteuil.
O espargo é uma espécie vivaz, sobrevive vários anos rebentando de novo todos eles a partir do caule subterrâneo, rizoma, que se sustenta de raízes carnudas com função de reserva, divergentes em forma de estrela, a que se chama garra. Gera caules aéreos, anuais, herbáceos, de eixo aprumado que podem atingir mais de 1,5 metros de altura, ramificados e de folhagem fina.

A partir da parte subterrânea partem, todos os anos, a partir dos gomos aí contidos, no¬vos ápices caulinares (parte comestível da planta), apelidados botanicamente de turiões que são a forma juvenil do caule aéreo do espargo, de forma piramidal, encerrando, na sua ponta, um gomo de muito grandes dimensões onde se encontram os primórdios de todos os órgãos aéreos, têm uma consistência tenra, por vezes fibrosa, principalmente com o envelhecimento. Esta estrutura, enquanto está debaixo da terra e protegida da luz, é branca, eventualmente com cores violáceas mais ou menos pronunciadas, depois de exposto à luz o turião inicia a fotossíntese, ficando verde.

O espargo é uma planta dioica, ou seja, existem plantas de flores “masculinas”, as preferidas para produção de turiões, e outras plantas de flores “femininas” e só estas frutificam, flores que são pequenas que surgem nas axilas das folhas apresentando uma forma de sino pendente com uma tonalidade verde-amarelada.
O fruto é uma baga globosa de até 0,5 cm de diâmetro que na fase de maturação adota uma cor vermelhada, vistosa, encerrando uma a duas sementes e muito apreciada pelas aves.
Segundo dados da FAO a China é o principal produtor mundial, representando quase 90% da área mundial sendo o Peru o segundo maior produtor, principalmente resultado da elevada produtividade que a cultura atinge nesse país, onde chega a ultrapassar a média de 10 t/ha.

A Espanha e a Alemanha são os maiores produtores europeus, sendo os países do cen¬tro e norte europeu os maiores consumidores e importadores.
De notar que a China, apesar da sua dimensão como produtora, exporta para a Eu¬ropa, fundamentalmente, espargo na forma de conservas e processados, ao passo que o México e o Peru são fornecedores regulares da Europa de espargo fresco.
Atualmente, Portugal apresenta-se como um importador líquido da hortícola, com uma área inexpressiva, praticamente inexis¬tente, cifrando-se a importação em mais de 1 milhão de euros anuais. A título de ilustração apresenta-se, a seguir, as cotações de um dos mercados de referência, o de Rungis, em França referente às flutuações da cultura no ano de 2011/2012 relativamente ao espargo verde (quadro 1).
Pela análise das cotações registadas no ano de 2012 pode-se concluir que, apesar das flutuações, estas mantêm-se, em média, estáveis em valores superiores aos 5€/kg. As menores cotações coincidem com a pontual produção, simultânea, das últimas colheitas do Sul da Europa e Marrocos e o pico de produção das áreas do centro e norte da Europa.

A nível da produção existem, atualmente, inúmeras variedades melhoradas e híbridas, estando disponíveis em alguns viveiros plantas 100% macho, ou seja, cuja propagação é feita de forma vegetativa. Esta distinção faz-se por serem as plantas “macho” mais produtivas e temporãs.
Comercialmente apresentam-se, de acordo com as variedades e o mercado (há preferências regionais), espargo verde, branco e violeta ou roxo.

ASPETOS CULTURAIS

As espargueiras (plantações de espargos), são muito duradouras, podendo, quando não exces¬sivamente exploradas, ter uma vida económica útil de 8 a 10 anos. Por este motivo deve-se ter muita atenção no estabelecimento da cultura.
A planta reproduz-se facilmente por semente, porém, do ponto de vista comercial não é compensador estabelecer uma espargueira a partir de semente, uma vez que deste modo não se podem iniciar as colheitas antes de volvidos 2 anos, e se as garras estiverem bem fortes.
Por este motivo o ideal é a aquisição de plantas em viveiristas especializados na multiplica¬ção e engorda de garras, o que permite antecipar o início da produção e o retorno económico.

CONDIÇÕES EDAFO-CLIMÁTICAS

O espargo desenvolve-se melhor em climas temperados, zonas que tenham primaveras suaves, afetando diretamente a precocidade da colheita. Necessita de um período de repouso vegetativo maior que 90 dias, pode se provocado por temperaturas invernais ou em alguns casos por calores estivais e stress hídrico.
É uma planta muito sensível a oscilações de temperaturas e, quando as temperaturas do solo são inferiores a 12ºC não se formam turiões. Por outro lado com temperaturas superiores a 25ºC e humidade baixa no solo aumenta o número de turiões “espigados” ou seja, emergem não compactos mas já em processo de ramificação, chegando os turiões a crescer mais de 15 cm por dia.

Quando a temperatura desce até aos 5ºC produz-se a morte da folhagem, entrando-se, geralmente, no período de repouso outono/Invernal. As temperaturas ótimas para o desenvolvimento do espargo estão descritas no quadro 2.

O espargo adapta-se a uma ampla gama de solos, sendo os solos ótimos para produção os franco com inclinação a franco arenoso ou limoso. Em solos arenosos a precocidade é maior, devido a este aquecer mais rapidamente. Tem uma notável tolerância à salinidade do solo (4,1 dS.m-1) e, embora tolere pH inferiores a 6,5, atinge as condições ideais entre este valor e o 7,5.

TÉCNICAS DE CULTIVO E ÉPOCA DE COLHEITA

No terreno que recebe as plantas de espargo deve-se realizar uma boa lavoura para que o sistema radicular se desenvolva com vigor e sem problemas, se necessário realizar uma despedrega,
Presumindo que as plantas (garras) provêm de um viveiro, deve-se ter em consideração as indicações do obtentor da variedade, pois a profundidade e marco de plantação dependem do material vegetal a usar e fim a que se destina (branco ou verde).

Como calibre ideal as garras compradas devem ter, idealmente, 60 gramas, e jamais menos de 20 gramas.
Nestas condições é admissível iniciar as colheitas no ano consecutivo ao da plantação. Quando se faz a plantação em estufa, e para melhor rentabilizar o espaço a exigência quanto ao calibre deve ser redobrada.
A densidade de transplantação da planta oscila entre 25.000-30.000 plantas/ha com marcos de plantação de 1,25-1,30 x 0,3 metros. No caso de cultura mecanizada o entrelinhamento duplica e a densidade reduz-se para cerca de metade.
Em estufas devera ser utilizada uma densidade de 33.000 plantas/ha a um marco de 1x0,33 metros.

Refira-se que alguns produtores aumentam enormemente a densidade plantação com o objetivo de produzir espargos delgados, mais parecidos com o espargo bravo, tentando beneficiar das cotações mais elevadas deste produto.
As plantações das garras devem ser realizadas na primavera, até meados de abril em valas com 25 cm de profundidade e 30 cm de largura (isto na cultura tradicional), posteriormente à plantação deve-se cobrir com 5-7cm de solo. No ano seguinte faz-se uma amonto que repõe o nível original de solo.

FERTILIZAÇÕES

O espargo é uma cultura com moderados requerimentos nutritivos, portanto os requisitos em termos de fertilização não são elevados, porém, devem respeitar-se momentos cruciais, coincidindo com as épocas de maior necessidade nutritiva da planta, ou seja, durante o momento de expansão vegetativa e depois da colheita, quando a planta esta a acumular reservas para a produção de turiões no ano seguinte.
Como as espargueiras são estabelecidas para perdurarem por largos anos é na plantação que se deve fazer uma boa preparação do fundo de fertilidade da cultura, nomeadamente com a aplicação de uma generosa (alguns autores falam de 50 a 60 toneladas/hectare) quantidade de matéria orgânica bem curtida (visto a cultura ser suscetível a fungos do solo, especialmente a Rhizoctonia) e que deve ser aplicada com a maior antecipação, além do de fósforo e potássio, assim como a aplicação de calcário e magnésio, segundo a análise do solo.
No quadro 3 são apresentadas as exportações anuais do espargo verde:

INFESTANTES E CUIDADOS CULTURAIS

A presença de infestantes é nociva para a planta, estas irão competir pela água e nutrientes, no momento da colheita estas também dificultam a localização dos turiões.
A sacha é uma operação complexa nesta cultura, pois apesar de alinhada vai, ao fim de alguns anos, começar a torna-se mais desordenada, de modo que é muito consumidora de tempo. Por outro, a utilização de herbicidas é problemática, não havendo seletividade e a aplicação geralmente restringe-se à fase anterior à emergência da cultura. Alguns estudos têm mostrado uma certa aplicabilidade da monda por meio do fogo, quando as infestantes estão no estado de plântula.

A utilização de plástico negro durante a fase de repouso vegetativo e de colheita, (especialmente na produção de espargo branco), permitem um controlo precoce muito eficiente.
No final do verão a parte aérea começa a fenecer, ocasião em que se deve cortar e eliminar do campo. Na primavera seguinte, dependendo da região, inicia-se o aparecimento dos turiões, o que pode acontecer a partir de finais de janeiro, geralmente março, prologando-se até maio fazendo-se a colheita por, no máximo, 2 meses em cada pé, nesta altura para-se a colheita e permite-se a sobrevivência de alguns turiões que irão dar origem à parte aérea que assegurará as reservas do ano seguinte.
Em muitas explorações realizam-se amontoas e descavas, tema que, tal como a produção em sistema de forçagem, serão abordadas no próximo artigo.

Rega

Ao longo do ciclo de cultivo do espargo verde existem três momentos cruciais em que o stress hídrico pode ter consequências graves. O primeiro momento é, obviamente, o momento da transplantação. Os outros dois correspondem a colheita de turiões e ao início do desenvolvimento anual da parte aérea. Em geral estas regas serão ligeiras, procurando nunca encharcar os solos. A cultura é, normalmente, regada por aspersão, podendo, optar-se pela rega localizada, eventualmente usando gotejadores.

Colheita

A colheita do espargo ocorre entre os meses de janeiro e maio. A colheita é feita com o corte, usando facas e goivas, junto à base do turião, obtendo-se estes com cerca de 20 cm, podendo ser de forma mecanizada com alfaias próprias, porém geralmente feita de forma manual, razão para a cultura se adequar aos países onde está disponível mão-de-obra barata.
A colheita do espargo branco é mais complexa, tendo, por vezes que se afastar um pouco a terra para permitir que a faca entre no solo e não se danifique o rizoma. Este espargo, se não produzido debaixo de plástico, deve ser colhido assim que a ponta assome à superfície, se existir algum atraso na colheita este adquire cor verde, o sabor transforma-se e torna-se fibroso (isto no caso de variedades próprias para espargo branco). No caso do cultivo do espargo verde quando os turiões atingem uma altura de 15-20cm e o ápice caulinar iniciar a formação de cladódios sabe-se que é o momento ótimo para a colheita dos turiões, esta deve ser realizada enquanto os turiões são jovens pois têm pouca fibra, com o passar do tempo os turiões lenhificam e tornam-se amargos.
As horas matinais são as preferíveis para se realizar a colheita, por estarem mais túrgidas. A colheita em países tropicais, recorrendo a técnicas agronómicas apropriadas - controlando-se, por exemplo, a administração de água (induzindo stress e assim um período de dormência) - permite que a colheita seja durante o ano inteiro.

Pragas e doenças

As pragas que mais prejuízos causam na cultura são, nomeadamente, a mosca do espargo (Platyparea poeciloptera Schr.), alguns afídios (Brachycorynella asparagi Mordv.), e as roscas (Agriotes lineatus). A doença mais grave que afeta esta hortaliça é a ferrugem do aspargo ( Puccina asparagi ) esta caracteriza-se por aparecimento de manchas de cor amarela-avermelhada nas hastes. Quando as folhas apresentarem sintomas de amarelecimento das folhas e queda pode estar infetado com o fungo da podridão radicular violeta (Helicoboridum purpureum). É necessário efetuar a remoção completa da planta e a sua destruição.

Por: Bruno Maciel - bramaciel@gmail.com

Na AGROTEC nº 15, poderá ver as entrevistas a Jamie Petchell, Especialista inglês da Hargreaves Plants e a Manuel Cardoso, Presidente da DRAPN, acerca desta hortícola que começa a ganhar cada vez mais interesse e destaque entre os agentes da fileira.

In AGROTEC nº 5 (segunda parte do artigo está publicada na AGROTEC nº 6).