Loja Agrotec

Instagram RSS feed

Agrotec

Quanto vale um solo saudável? Primeiro encontro nacional de agricultura regenerativa arranca quarta-feira na Golegã

A 9 e 10 de setembro, a Quinta da Melhorada, na Azinhaga, recebe o TERRA’26: dois dias, 46 sessões, cerca de 60 oradores e 40 expositores, num ano em que o Banco Mundial projeta uma subida superior a 30% no índice global de fertilizantes. 

O TERRA’26 – Enraizados no Futuro reúne esta quarta e quinta-feira, na Quinta da Melhorada, na Azinhaga, Golegã, agricultores, investigadores, empresas e decisores públicos. É o primeiro encontro profissional em Portugal inteiramente dedicado à agricultura regenerativa e junta, em dois dias cerca de 60 oradores e 40 expositores, em torno de uma pergunta que ganhou urgência este ano: como continuar a produzir alimentos quando os custos dos fatores de produção disparam. 

O encontro chega num dos anos mais difíceis da última década para os custos agrícolas. Depois do encerramento quase total do Estreito de Ormuz, por onde passa perto de um quarto das exportações mundiais de ureia, o preço deste fertilizante azotado subiu cerca de 80% entre fevereiro e abril e ultrapassou os 850 dólares por tonelada. O Banco Mundial projeta para 2026 uma subida superior a 30% no índice global de fertilizantes, que levou a Comissão Europeia a apresentar em maio uma estratégia para reduzir a exposição externa do setor. 

É aqui que a agricultura regenerativa deixa de ser apenas um debate ambiental. Práticas regenerativas como reduzir a mobilização do solo, mantê-lo coberto, introduzir culturas de cobertura com leguminosas, aproveitar melhor os nutrientes e os efluentes pecuários e produzir localmente mais alimentação animal traduz-se em menos gasóleo queimado e menos fertilizante comprado fora da Europa. «Este modelo pretende que os agricultores ganhem mais dinheiro, tenham mais economia na sua produção a partir da redução dos custos», resume João Coimbra, agricultor da Quinta da Cholda e impulsionador do encontro. 

A proposta não se esgota na conta de custos. «O agricultor hoje é chamado a fazer muito mais do que produzir só alimentos. Tem de tomar conta do território, tem de aumentar os níveis de biodiversidade, porque o modelo agrícola tem de estar integrado num território cada vez mais saudável e não pode ser só uma coisa isolada, em que se produzem ali alimentos e não temos mais nenhum contacto com a sociedade.» 

Durante dois dias há conferências, ensaios de campo e máquinas em demonstração — incluindo um auditório onde o público entra literalmente dentro do solo. O programa organiza-se em cinco eixos — saúde do solo, das plantas, dos animais, das pessoas e da paisagem e sociedade — e junta representantes da FAO, da Direção-Geral da Agricultura da Comissão Europeia, do Gabinete de Planeamento e Políticas (GPP) e da European Alliance for Regenerative Agriculture, a par de agricultores e técnicos de vários países europeus e de investigadores da Universidade de Évora, do Instituto Superior de Agronomia e da NOVA Medical School. 

Do solo ao prato 

A agricultura regenerativa parte de uma inversão: «a agricultura moderna faz crescer plantas a partir do solo; a agricultura regenerativa faz crescer solo a partir das plantas». Em vez de tratar a terra como um suporte a que se repõe com adubo aquilo que a colheita levou, trata-a como um organismo vivo que se alimenta e faz crescer — mantendo o solo sempre coberto, revolvendo-o o menos possível, alternando culturas, com raízes vivas todo o ano e, onde faça sentido, com os animais de volta. Uma agricultura que esgota a terra é degenerativa; uma agricultura sustentável mantém o que encontrou; regenerar é deixá-la melhor do que estava. 

O modelo acaba por inevitavelmente ser influenciado pela água. Um solo compactado e nu deixa a chuva escorrer à superfície e leva terra consigo; um solo coberto e com estrutura absorve-a e guarda-a. Num país que alterna secas prolongadas com chuvadas violentas, é a diferença entre um aquífero que recarrega e uma ribeira que transborda. Mais matéria orgânica no solo é também carbono retirado da atmosfera, e uma paisagem com mais coberto é uma paisagem com mais vida. 

Depois, vem a questão da alimentação. A qualidade do que comemos começa naquilo que a planta conseguiu retirar da terra, e é a vida do solo — bactérias, fungos, minhocas — que torna os minerais acessíveis às raízes. Quando essa vida se degrada continua a haver colheita: com azoto, água e sol produz-se volume. A dúvida é se se produz o mesmo alimento. «Hoje temos uma alimentação pobre, pobre em nutrientes, pobre em vitaminas», afirma João Coimbra. 

Nada disto é consensual, e a organização não finge que seja. «A feira vai ser uma feira de provocações», avisa João Coimbra. «Tem coisas que os agricultores não vão considerar aceitável fazer.» O objetivo não é vender uma receita, mas forçar uma pergunta: se o modelo atual permite, ou não, entregar a exploração à geração seguinte — numa altura em que se assiste ao fim de muitas gerações de agricultores e ao abandono de explorações em toda a Europa. Porque no fundo, a agricultura regenerativa, não é só agricultura, mas sim todo um ecossistema que a rodeia e que tem de ser preservado e desenvolvido, para o bem de toda a sociedade.