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A agricultura entra na era dos sistemas conectados: cinco tecnologias que estão a transformar o campo

A Stratesys identifica a interoperabilidade entre maquinaria, dados e plataformas como o próximo grande salto da agricultura de precisão. A falta de conectividade rural, o investimento inicial e a formação digital continuam a travar a adoção tecnológica entre as explorações agrícolas de menor dimensão.

Durante séculos, a produtividade agrícola dependeu quase por completo da experiência acumulada pelo agricultor: o conhecimento do terreno, a leitura do clima e a intuição desenvolvida ao longo de sucessivas temporadas. Essa forma de gerir o campo convive hoje com satélites, sensores, algoritmos e robôs que permitem tomar decisões com um nível de precisão impensável há apenas uma década.

O setor agro tem-se tornado, assim, uma das áreas onde a transformação digital avança com intensidade, impulsionada pela pressão regulamentar, pelo aumento do custo dos fatores de produção, pela escassez de mão de obra e por uma exigência crescente de sustentabilidade.

Esta é uma das principais conclusões da análise realizada por especialistas da Stratesys sobre a evolução tecnológica do setor agro. A análise assinala que o setor está a entrar numa nova etapa da agricultura de precisão. Perante uma primeira fase caracterizada pela incorporação de ferramentas digitais independentes, a denominada Agricultura de Precisão 2.0 baseia-se na ligação entre sistemas, na integração dos dados e na automatização das decisões no âmbito da operação diária das explorações.

«A tecnologia não vem substituir o conhecimento acumulado pelos agricultores. A sua função é complementar essa experiência com informação mais precisa, antecipar riscos e ajudar a utilizar melhor recursos que são cada vez mais escassos e dispendiosos», explica Luis Piguillem, diretor associado da Stratesys e responsável pelo setor agro.

Cinco tecnologias que estão a redefinir a atividade agrícola

Neste sentido, os especialistas da Stratesys identificam cinco grandes blocos tecnológicos que estão a impulsionar a transformação do setor:

Sensores e Internet das Coisas. Os sistemas de medição permitem conhecer variáveis como a humidade do solo, o nível de nutrientes, a radiação solar ou as condições ambientais. Esta informação ajuda a aplicar água, fertilizantes ou sementes de forma diferenciada em cada zona da exploração.

Satélites e drones. A observação remota facilita a monitorização do estado das culturas e a deteção precoce de pragas, deficiências nutricionais ou situações de stress hídrico. Deste modo, os agricultores podem atuar apenas nas áreas que necessitam de intervenção.

Inteligência artificial e análise preditiva. Os algoritmos combinam informação proveniente de sensores, imagens de satélite e previsões meteorológicas para antecipar riscos, recomendar ações, estimar o volume das colheitas e otimizar os calendários de sementeira, rega e fertilização.

Robótica e automatização. A maquinaria autónoma começa a assumir tarefas como a sementeira, a pulverização seletiva ou a manutenção das culturas, reduzindo a necessidade de supervisão contínua e contribuindo para fazer face à escassez de mão de obra.

Blockchain e rastreabilidade alimentar. A tecnologia de blockchain permite registar informação sobre a origem do produto, a data da colheita, os tratamentos aplicados, as condições de transporte e armazenamento ou a sua pegada de carbono, reforçando a transparência de toda a cadeia alimentar.

A aplicação conjunta destas tecnologias permite passar de uma gestão uniforme das explorações para um modelo de intervenção seletiva, no qual os recursos são utilizados apenas onde e quando são necessários.

A margem de crescimento, contudo, continua a ser ampla.

Em Portugal, a agricultura representa uma parte significativa do território nacional: em 2023, a Superfície Agrícola Utilizada (SAU) correspondia a 41,9% da superfície territorial do país, segundo dados do INE disponibilizados pela PORDATA. Portugal tem sofrido transformações ao nível da incorporação da tecnologia, reforçando sempre a importância de tecnologias capazes de melhorar a eficiência da utilização dos recursos, otimizar as operações agrícolas e apoiar uma gestão mais precisa e sustentável das explorações.

De acumular informação a tomar melhores decisões

Uma das principais mudanças identificadas pela Stratesys é a evolução das necessidades das explorações agrícolas. Depois de anos a gerar grandes quantidades de informação, o setor começa a procurar plataformas capazes de integrar esses dados e traduzi-los em recomendações diretamente aplicáveis.

«A tecnologia só acrescenta valor quando simplifica a tomada de decisões. O agricultor não precisa de receber mais dados, mas de saber o que deve fazer, em que momento e em que zona concreta da sua exploração», sublinha Piguillem.

A interoperabilidade será, neste contexto, um dos elementos determinantes para a evolução do setor. A possibilidade de ligar maquinaria de diferentes fabricantes e centralizar a informação numa única plataforma pode contribuir para prolongar a vida útil dos equipamentos, reduzir a dependência de ecossistemas tecnológicos fechados e melhorar a rentabilidade dos investimentos.

Além disso, uma gestão integrada dos dados facilitará o cumprimento das novas obrigações regulamentares relacionadas com a utilização de fertilizantes, os tratamentos aplicados, a rastreabilidade dos alimentos e a medição do impacto ambiental.

Conectividade, investimento e formação: os principais desafíos

Apesar do avanço tecnológico, a adoção continua a ser desigual. O custo inicial dos equipamentos continua a constituir uma barreira para as explorações de pequena e média dimensão, enquanto as limitações de conectividade em determinadas zonas rurais dificultam a utilização de plataformas na nuvem e de soluções que exigem uma troca contínua de informação.

A isto junta-se a necessidade de reforçar a formação digital dos profissionais do setor agrícola e de estabelecer modelos claros relativamente à propriedade, ao armazenamento e à utilização dos dados gerados pelas explorações. A confiança constitui um requisito prévio para a partilha de informação. Os agricultores precisam de saber quem controla esses dados, onde estão alojados, quem pode aceder-lhes e para que finalidade são utilizados.

Sem estas garantias, dificilmente as explorações partilharão informação produtiva, económica ou agronómica que consideram estratégica. Esta falta de partilha limitaria a capacidade de ligar diferentes fontes, alimentar modelos preditivos fiáveis e dispor de uma visão completa sobre a qual basear as decisões.

«O desafio não é exclusivamente tecnológico. Para que esta transformação chegue ao conjunto do setor, é necessário facilitar a conectividade, desenvolver soluções compatíveis e acessíveis, acompanhar os agricultores durante todo o processo de adoção e estabelecer garantias de segurança e transparência que permitam a cada exploração manter o controlo sobre a sua informação», defende o diretor associado da Stratesys.

Segundo a empresa, a digitalização deixará progressivamente de ser um elemento diferenciador reservado às explorações mais avançadas para se tornar uma condição necessária para competir, responder às exigências do mercado e avançar rumo a uma produção mais eficiente e sustentável, sempre como apoio ao critério e ao conhecimento profissional do agricultor.