Pequenos Frutos: «é urgente um caderno de especificações do setor»

mirtilos

Tadeu Alves, produtor de mirtilos na região Norte do país, fala, em entrevista à Pequenos Frutos, da campanha de 2018 e dos problemas que enfrentou, nomeadamente, os provocados pela praga Drosophila suzukii. Entre outros temas abordados, destaque para a comercialização. Nesta matéria, o produtor não tem dúvidas: «é essencial uma relação de confiança e de transparência entre os produtores e as estruturas de comercialização».

Entrevista: Ana Clara 

Pequenos Frutos: Como correu a campanha de 2018 no que respeita ao mirtilo?

Tadeu Alves: Na campanha de 2018, os padrões de qualidade da fruta ficaram aquém das expectativas. As alterações climáticas a que temos assistido, com momentos de variação extrema da temperatura, provocaram algum choque nas plantas, o que influenciou negativamente a qualidade da fruta. Associado a este facto esteve a reduzida disponibilidade de mão de obra para a colheita (falo em concreto no território onde atuamos, Alto Cávado, Região Norte). Efetivamente a qualidade da fruta este ano foi inferior aos anos anteriores, mas dos relatos ouvidos durante a campanha, este foi um problema de dimensão nível nacional.

PF: Relativamente à última campanha, em termos percentuais, estamos a falar de quanto ao nível de perdas?

TA: Em 2016/2017, os valores de fruta não considerados na categoria Extra rondavam os 5 a 7%, e este valor foi mais significativo rondando os 12%. Tivemos conhecimento de produtores com perdas de valor muito superior, valores na casa dos 25%. O que é muito significativo.

PF: Além do clima, houve também problemas ao nível de pragas e doenças…

TA: Em termos de doenças não se notou grande diferença em relação ao que foi verificado nos anos anteriores. No entanto ao nível das pragas, o cenário muda de figura. A Drosophila suzukii é com certeza um termo familiar a muitos, senão todos os produtores de pequenos frutos. A sua presença e disseminação no território é um foco de extrema instabilidade produtiva na cultura. Este é um problema que, fruto do abandono de algumas explorações frutícolas, tendencialmente se agravará de ano para ano.

PF: E que soluções vislumbra para combater esta praga?

TA: Entendo que é necessária a implementação de uma estratégia fitossanitária nacional ao nível do combate à Drosophila suzukii, ao nível do que se faz, por exemplo, com a flavescência dourada na vinha. É urgente a tomada de consciência deste problema por parte da tutela. Defendo esta concertação ao nível do controlo e combate a esta praga, pois trata-se de uma fileira que tem contribuído, em muito, para o rejuvenescimento da agricultura, para a empregabilidade local, para a recuperação de territórios que estavam voltados ao abandono, para a atratividade do setor, para o aumento das exportações do agroalimentar, contribuindo para o equilíbrio da balança alimentar nacional. Em suma, caso não sejam tomadas medidas urgentes, poderá este problema colocar em causa todo o trabalho que foi feito ao longo dos últimos anos.

tadeu alves

PF: Falou da questão do abandono do território. Isso é preocupante.

TA: É extremamente preocupante. Falando apenas das questões relacionadas com a produção de pequenos frutos, a montante teremos preocupações de nível fitossanitário, por via da propensão à multiplicação/ disseminação de focos de contaminação/dispersão de pragas e doenças. Temos falado fundamentalmente da Drosophila suzukii , no entanto é importante estar atento ao aparecimento de outras pragas, como por exemplo a traça da uva, Lobesia botrana. Em outras zonas de produção de pequenos frutos do Globo, esta é já uma preocupação ao nível da mosca da asa manchada…

(Continua)

Nota: Artigo publicado na edição impressa da Pequenos Frutos 25.

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