«O consumidor nacional tem um interesse muito especial pelo ananás dos Açores»

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José Dâmaso, sócio-gerente da Boa Fruta, situada na Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel, nos Açores, fala nesta entrevista das características únicas do ananás dos Açores. Da produção à comercialização, passando pela exportação e desafios atuais, o responsável explica ainda onde se posiciona hoje a empresa que é um dos principais produtores e comercializadores de ananás dos Açores. 

Entrevista: Daniela Faria e Ana Clara | Fotos: Boa Fruta

AGROTEC: A Boa Fruta é considerada uma das principais empresas produtoras de ananás dos Açores. Fale-nos um pouco da história da empresa e onde se posiciona atualmente?

JOSÉ DÂMASO: A Boa Fruta, Lda., sediada na Freguesia de Fajã de Baixo (“A Capital do Ananás”) na ilha de São Miguel, Açores, é uma empresa detida por um grupo familiar composto por quatro irmãos que estão a dar continuidade ao trabalho do seu avô no setor frutícola e agropecuário. As primeiras estufas de Ananases dos Açores da família remontam à década de 30 do século passado. Atualmente, a empresa apresenta-se como um dos principais produtores (100t/ano) e comercializadores (300t/ano) de Ananás dos Açores. Realce-se a sua presença, ainda que menos expressiva, na comercialização da Banana dos Açores e Maracujá dos Açores em Portugal Continental.

AG: A cultura do ananás tem algumas especificidades em termos de produção. Explique-nos o que um produtor tem que fazer até obter o fruto do ananás.

JD: Diz-se que um produtor de ananás, um estufeiro, é um artesão, isto porque a cultura é mais que uma mera produção de fruta, é sim uma arte. Para termos um Ananás dos Açores, produzido em estufas tradicionais de madeira e vidro, há que seguir um método de produção tradicional que é único no mundo. O ciclo, desde o desenvolvimento do plantio até à apanha do fruto demora mais de dois anos e é dividido em três fases: abrolhamento, plantação disposta e plantação definitiva. Ao longo de todas as fases o substrato utilizado é o mesmo: estilhas de Pittosporum undulatum Vent, Incenso, (espécie invasora na ilha) e serradura. Um destaque especial para atividades muito próprias deste método de cultivo: a fumigação[1] com recurso a matérias vegetais secas (folhada de criptoméria, bananeira, feijão) para a indução floral que permite uma colheita homogénea e planeada; a caiação com recurso a leite de cal de forma a controlar a radiação e temperatura dentro das estufas; a remoção do meristema apical da coroa, a “capação do ananás” que dá à coroa do fruto um aspeto elegante e subtil. Para um produtor ter um Ananás dos Açores, ele tem abraçar uma arte que já existe há mais de 150 anos e tem que ter uma paixão enorme por esta cultura que é única no mundo.

«Fruto único e incomparável»

AG: Qual a diferença entre o ananás dos Açores e outro de outra região produtora do mundo.

JD: São algumas as diferenças que tornam o nosso Ananás dos Açores/São Miguel DOP um fruto único e incomparável. O método de produção natural, sustentável e circular, em estufa coberta e sem recurso a pesticidas e inseticidas. O aspeto do fruto, com uma coroa mais subtil e forma cilíndrica e afusada. E o sabor. Um sabor inigualável que permite ao consumidor um balanço ímpar entre a acidez e a doçura do fruto.

AG: O produto conta com Selo Denominação de Origem Protegida. Acredita na importância desse selo para o produto? Que outros selos acha pertinente o agricultor apresentar?

JD: A marca DOP é essencial para identificar o nosso fruto perante todos os restantes ananases e para atestar o seu método de produção sustentável, controlo feito pelo Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas. Considero pertinente que os produtores de Ananás dos Açores apostarem na certificação Método de Produção Biológica. A verdade é que para o Ananás dos Açores ter certificação MPB basta apenas solicitar a mesma, visto que o nosso método de produção já contempla os princípios do MPB.

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AG: Em termos de apoios à produção, que tipos de incentivos têm?

JD: Atualmente a produção é apoiada pelo programa POSEI AÇORES.

AG: Quanto exportou em 2018 (quanto representou em termos de % de faturação), quais os mercados de exportação e que outros mercados podem vir a ser uma hipótese no futuro?

JD: Tendo em conta a nossa realidade insular, consideramos o mercado continental como mercado de exportação, que é o nosso principal mercado para o qual, em 2018, exportamos 75%. Consideramos que há muito potencial no mercado da Europa Central e do Norte.

AG: Como classifica o comportamento do consumidor nacional - Continente - em relação ao ananás dos Açores?

JD: O consumidor nacional tem um interesse muito especial pelo Ananás dos Açores. Sendo um fruto que tem à sua mesa ao longo de todo o ano, a verdade é que há uma grande procura pelo mesmo nas épocas festivas, Natal e Páscoa particularmente. Para os momentos importantes, Ananás dos Açores.

(Continua)

Nota de Redação: Artigo publicado na edição n.º 30 da Revista AGROTEC, no âmbito do Dossier As novas tendências da fruticultura.

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