Expectativas Elevadas para o Mercado dos Pequenos Frutos

Num passado recente, instalou-se algum receio em alguns empresários de Pequenos Frutos, sustentado pelo aumento da oferta do mirtilo e framboesa e pela pouca capacidade de exportação portuguesa, sobretudo dos produtores que ainda não ligados a associações e a estruturas de exportação. A Pequenos Frutos foi ouvir alguns dos responsáveis de estruturas comerciais e organizações de produtores para ficar a saber como decorre a campanha e quais as expectativas para o futuro. Qualidade, profissionalismo e otimização são o caminho apontado para a sobrevivência e sucesso dos produtores nacionais, traduzindo sobretudo uma ideia que a campanha do ano passado correspondeu às expectativas, acalmando as vozes mais pessimistas.


Pequenos Frutos: Como correu a campanha de produção e comercialização de mirtilo de 2014?

Fernanda Machado (bfruit): Comercializado todo o fruto dos produtores que integraram esta organização, a campanha decorreu dentro das expectativas. Os produtores da nossa organização estão todos em início de produção/primeira colheita (sendo que alguns ainda não iniciaram).

Rui Santos (naturalbio): A campanha de produção este ano (2014) revelou-se de excelente qualidade. No que diz respeito à quantidade, também ela não foi má, bem pelo contrário: para pomares relativamente recentes, podemos considerar que as expectativas (tanto em quantidade como em qualidade) foram largamente superadas. A isto, naturalmente, devem-se diversos fatores tais como a escolha assertiva das variedades em função da natureza dos solos e sua localização, bem como o maneio adequado nas diversas fases do pomar.

João Almeida (COAPE): A COAPE ainda não comercializa fruta. Só no próximo ano (2015) teremos produção.

Arnoldo Heeren (Lusomorango): Continuamos entusiasmados com a produção e a comercialização do mirtilo. Cabe salientar, porém, que tal entusiasmo vem paralelo a uma organização e a um planeamento para o escoamento, sem os quais tal entusiamo esmoreceria.

Mercado-dos-Pequenos-Frutos

PF: Quantas toneladas de mirtilo nacional foram comercializadas pela organização?

FM (bfruit): 40 toneladas.

RS (naturalbio): 40 toneladas.

PF: Qual o preço médio pago ao produtor?

FM (bfruit): Preço médio é de 3€/kg pago ao produtor (os custos de embalamento e transporte são suportados paralelamente pela bfruit). 

RS (naturalbio): O preço médio pago ao produtor foi de 3,85€.

PF: Continua a confirmar-se como estratégica a janela de produção de maio/junho ou as cotações já se começam a uniformizar, originando uma janela alternativa ou levando à inexistência deste tipo de janelas?

FM (bfruit): Poderá ter sido apenas este ano, num universo de entre 2 a 5 anos no máximo. No entanto, na nossa opinião, num futuro próximo, os preços irão baixar e as janelas de oportunidade desaparecer, uma vez que a oferta vai acompanhar ou exceder a procura... mais à frente, a oferta e a procura vão equilibrar, os preços vão ser mais estáveis (ou com baixas oscilações) e uniformes, dando espaço apenas para os produtores mais profissionais, com melhor qualidade, com uma estrutura de custos bem controlada e bem organizados comercialmente - com uma estrutura forte - com grandes volumes e com baixos custos de logística e transporte, de uma forma geral.

 RS (naturalbio): Sim, é verdade que a janela temporal de maio/junho continua a perfilar-se como a estrategicamente mais vantajosa contudo, no nosso entender, outras janelas de oportunidade se desenham, para variedades mais tardias, pois na Europa já temos países que também começam a produzir em maio/junho e com quantidades bem superiores às que se produz em Portugal, no entanto, estes mesmos países, por várias razões (entre as quais as condições edafoclimáticas), não conseguem produzir mirtilos de variedades tardias com o mesmo sucesso que se produz em Portugal, devido a um conjunto de fatores que nos poderão ajudar para termos uma janela que nos poderá vir a beneficiar em larga escala.

JA (COAPE): Esta janela começa a não se traduzir numa mais valia, pois a vizinha Espanha tem produção neste período, a menos de 1/2 semanas. Basta uma mínima alteração climática para se darem coincidências nas produções (Espanha/Portugal). Temos feito algumas pesquisas sobre como adiantar e/ou atrasar a maturação da fruta por forma a combater estas coincidências.

AH (Lusomorango): No nosso caso, as janelas de produção descritas não correspondem às possibilidades existentes nas nossas geografias de produção. Devo dizer que temos outras hipóteses de produção, que podem ser mais atraentes do ponto de vista comercial e também do ponto de vista laboral, no sentido de ter a utilização da mão-de--obra mais equilibrada durante um período mais alargado do ano.

Fernanda Machado, Diretora da Bfruit

Rui Santos, da Naturalbio

PF: Portugal está, de facto, a registar um crescimento exponencial na produção do mirtilo. Contudo, em termos de produção mundial, continua a não ter praticamente nenhuma expressão. Em que medida é que este aumento produtivo pode influenciar o preço de forma determinante?

FM (bfruit): Portugal, quando tiver 1250 ha em produção (pelo menos para a Europa) já terá uma forte expressão e, conjuntamente com a Espanha, poderá perfeitamente acompanhar ou exceder a procura/consumo, mesmo nas supostas “janelas de oportunidade”! Neste sentido, irá ter que se debater com outro campeonato... o profissional: definido por uma qualidade extrema, grandes volumes e com um sério trabalho comercial. Trabalhar também mercados fora da Europa será necessário, que é algo que a bfruit já está a fazer!

RS (naturalbio): De facto, é uma realidade. Portugal está a registar um crescimento brutal na produção do mirtilo mas também é uma realidade que, em termos de produção mundial, continua a não ter expressão. Contrariamente a outros players deste mercado, a naturalbio não acredita que este aumento de produção possa influenciar o preço de uma forma tão determinante, como é referido em alguns meios de comunicação. Naturalmente que, para que assim seja, temos que delinear estratégias e ter alguns cuidados, que têm que ser tidos em linha de conta desde o produtor ao comercializador, passando por todas as empresas de consultoria e acompanhamento agrícola.

A expressão produtiva de mirtilo em Portugal no mundo é reduzida, mas a qualidade não. No nosso entender, como produtores e comercializadores que somos, temos que tirar partido disso mesmo: produzir com a melhor qualidade. Não produzir quantidade mas sim qualidade, “não produzir preços mas sim sabores”. Todos sabemos que a qualidade tem um preço e é necessário que os comercializadores se acautelem em procurar clientes no “mundo”, que saibam reconhecer a qualidade deste fruto produzido em Portugal. Podemos dizer na primeira pessoa que os nossos clientes no mercado externo já começam a reconhecer a nossa qualidade e a mostrarem abertura total para pagar um pouco mais por este nosso produtor de qualidade diferenciada. Desculpem-me a frontalidade mas, para chegar a esta realidade, temos que nos cultivar mentalmente para saber aprender a produzir não apenas por produzir, mas para produzir bem.

JA (COAPE): O preço é sempre uma relação oferta/procura. Se aumenta a oferta, também a procura pode aumentar. Tudo depende do marketing estratégico dos grupos distribuidores. Como certo, temos a que a qualidade será sempre determinante e que a procura haverá sempre, pois estão provadas as excelentes características deste precioso fruto.

AH (Lusomorango): Acreditamos que Portugal tem condições de clima muito interessantes para se tornar uma geografia de produção importante. Vale porém lembrar que tal facto, por si só, não será suficiente para impulsionar o setor. A organização da produção e do escoamento, a profissionalização do tecido produtivo, a genética e a técnica adequadas e mão de obra em quantidade e qualidade suficientes são fatores que, juntamente com o clima, qualidade da água e investimentos, formam as condições para tornarem Portugal uma geografia vencedora e forte em qualquer tipo de produção, e com os mirtilos não poderia ser diferente.

Produção de Framboesas

PF: Neste ano, o Norte de Portugal apresentou uma quantidade de framboesa muito acima do habitual. Como está a correr o escoamento desta produção?

FM (bfruit): A comercialização da framboesa também teve um fenómeno idêntico no que concerne ao preço, devido ao clima no resto da Europa (sobretudo nos países nórdicos)... no caso da framboesa penso que se deveu mais a este facto do que ao aumento significativo da produção. A framboesa é uma cultura mais exigente, mais difícil de se obter alta qualidade, os investimentos são bem mais elevados, a maioria dos produtores (sobretudo no Norte) não têm os recursos mínimos exigidos para produzir

com qualidade... enfim, um largo número de situações que me levam a estimar que as desistências por parte dos produtores de framboesas andará na ordem dos 75% nos próximos anos. O preço mínimo pago ao produtor é de 3€/kg e o preço máximo é de 6€/kg. O transporte e as embalagens (caixas, covetes e etiquetas) são sempre suportadas pela bfruit portanto os preços pagos ao produtor são sempre retirando todos os custos envolvidos na comercialização.

RS (naturalbio): Sim, o Norte de Portugal apresentou uma quantidade de framboesa muito acima do habitual, o que também é perfeitamente normal visto que foram instalados muitos pomares deste pequeno fruto num curto espaço de tempo, sendo uma particularidade da framboesa produzir no ano de plantação, o que naturalmente levou ao aumento da produção.

Relativamente ao escoamento desta produção, sentiu-se alguma dificuldade, não porque não houvesse mercado mas sim pela falta de qualidade do fruto. Esta falta de qualidade ficou a dever-se a alguns fatores, podemos dar como exemplo: produções ao ar livre, regas deficientes, falta de conhecimento técnico na aplicação das fertirregas bem e falta de conhecimento técnico na colheita e pós colheita, variedades muito antigas e fraca qualidade de plantas.

JA (COAPE): Também apenas para o ano comercializaremos este fruto. No entanto, estamos informados da exponencial procura a nível mundial, pelo que a quantidade será insuficiente, relativamente à procura.

AH (Lusomorango): Como sabe, não atuamos na região norte. Em relação às regiões sul e ao Ribatejo, o escoamento aconteceu de forma regular, conforme o planeado.

Adriana Bastos (Mirtilusa): Não comercializamos framboesa, apenas mirtilo e groselha.

PF: Houve notícias de problemas de comercialização na groselha. O que aconteceu?

FM (bfruit): No caso da bfruit a comercialização de groselha foi a que melhor decorreu... Os produtores acertaram, de um modo geral, com a qualidade exigida e tivemos sempre muitas solicitações por parte dos nossos clientes na Europa. Os preços desde o dia 15 de maio até ao dia 10 de junho rondaram sempre os 8/12/kg ao produtor (retirados todos os custos de embalamento,

Produção de Groselha

logística e transporte)... a partir desta data os preços desceram abruptamente e chegaram a a tingir os 4,5/kg. Na groselha ainda é bem patente a “janela de oportunidade” para Portugal e penso que poderá continuar para quem produzir com muita qualidade e consiga colher entre o final de maio e início de junho.

RS (naturalbio): Produzir pequenos frutos é fácil, produzir pequenos frutos com qualidade não é tão fácil assim, e muito menos para quem se inicia neste mundo sem qualquer conhecimento técnico.

Dentro dos pequenos frutos, a groselha é, seguramente, aquela que apresenta maior dificuldade na sua produção. Ao apresentar maior dificuldade técnica na sua produção, aliada ao facto de o nosso país não ter as melhores condições climáticas para a produção deste pequeno fruto, é natural que a produção apresentada pelos produtores aos comercializadores não tenha a qualidade a qualidade esperada e, com isto, a comercialização, pura e simplesmente, não acontece. Mais uma vez peço desculpa pela frontalidade, mas cabe-nos a nós “comercializadores, empresas de consultoria agrícola, projetistas, etc” alertar os jovens produtores para esta realidade afim de evitar maiores prejuízos para quem decide fazer da agricultura a sua vida.

JA (COAPE): A groselha é um fruto com um potencial incrível. É um fruto extraordinariamente sensível aos fenómenos climáticos, o que exige plantações muito bem estruturadas, de forma a proteger o fruto. Infelizmente, nem todas as plantações garantem estas exigências, pelo que muitas vezes o fruto não é apresentado nas condições exigidas por um mercado cada vez mais exigente.

AH (Lusomorango): Estando a groselha fora do nosso âmbito de ação, não posso responder-lhe a essa questão.

AB (Mirtilusa): Não tivemos dificuldade em comercializar a groselha dos nossos produtores.

In Pequenos Frutos 8 (AGROTEC 12)