Controlar a dor nas patas de vacas leiteiras

Por George Stilwell | Médico-veterinário, PhD, Diplom ECBHM, Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa

vacas

Recentemente concluímos, no nosso laboratório de comportamento e bem-estar animal (CIISA, FMV-UL), um estudo sobre formas de controlar a dor durante o tratamento de lesões podais em vacas leiteiras.

Este tratamento normalmente inclui o corte e aparagem de tecido vivo e sensível. A melhor imagem que encontro para transmitir o valor e a importância desta abordagem perante uma intervenção dolorosa, é a de alguém que vai ao dentista e regressa sem ter sentido qualquer desconforto. Hoje em dia parece-me que já ninguém admite a possibilidade de sofrer quando vai tratar uma cárie ou mesmo arrancar um dente. Isto porque a medicina evoluiu imensamente e com ela a farmacologia que agora nos apresenta soluções seguras, eficazes e baratas. Agora o dentista, apenas com uma picadela de mosquito sobre o nervo, consegue suprimir toda a dor que iria provocar ao brocar até ao amago da raiz do dente doente.

Assim como no dito tratamento de uma cárie humana, a intervenção sobre uma lesão podal de uma vaca é, potencialmente, fonte de imensa dor e sofrimento. Infelizmente temos tendência a esquecer-nos disso porque conseguimos manietar a vaca para que as reacções se tornem menos perceptíveis. Isto, associado à pouca formação que alguns técnicos têm na área da fisiologia da dor e das regras de bem-estar animal, leva a que algumas práticas sejam mais violentas do que deveriam.

No entanto, também teremos de admitir que as limitações a um controlo perfeito da dor aguda neste tipo de intervenções, são de difícil resolução. O bloqueio nervoso através de infiltrações ou injecção intravenosa abaixo de um garrote exige competência técnica e um tempo extra de contenção, que é geralmente muito stressante para o animal. Por outro lado a sedação ou a analgesia com opioides pode comprometer a segurança alimentar ou obriga a descartar o leite, sendo um custo adicional. Não é, portanto, fácil encontrar uma solução que cônjuge a eficácia, a segurança (do animal, do operador e alimentar) e o impacto económico.

Precisamos, portanto, de investigar muito mais nesta importantíssima área.

Recentemente quando estive na Austrália, tomei conhecimento de um medicamento usado em várias intervenções dolorosas em animais de produção. Este gel, viscoso e pegajoso, contém dois anestésicos locais (lidocaína e bupivacaína) e ainda adrenalina e um desinfectante chamado cetramida. Pareceu-me ser um medicamento perfeito para controlar localmente a dor quando é preciso desbridar tecido inflamado e sensível, como acontece no tratamento das lesões das patas das nossas vacas leiteiras. Este medicamento apresentava ainda o potencial de associar a facilidade de aplicação com a rapidez de acção e ainda o baixo custo. Faltava comprovar a eficácia. Daí o estudo.

O estudo consistiu em aplicar o referido gel sobre lesões em que havia exposição de tecido vivo e sensível das unhas das vacas, antes de proceder ao desbridamento e correcção (equivalente à tal brocagem profunda do dente cariado). Se o produto comprovasse alguma eficácia conseguiremos tratar lesões profundas sem causar demasiada dor, adicionando ainda a garantia de maior segurança do operador pois a vaca irá debater-se e escoicear muito menos.

Os resultados foram deveras satisfatórios. Houve muito menos reacção ao corte, menos dor à compressão da área (avaliado através da pressão com um algometro digital) e menor grau de claudicação à saída do tronco. Não sendo o tratamento perfeito poderá ser uma solução para reduzir o sofrimento durante a intervenção e nos momentos imediatamente subsequentes. Para além disso a aplicação poderá ser feita por alguém sem autorização e competência para o uso de analgésicos e anestésicos injectáveis e o leite destes animais poderá continuar a ser aproveitado para consumo humano.

E quanto à dor mais prolongada? É conhecido que após a dor aguda temos a dor arrastada e insidiosa, por vezes denominada dor crónica, que pode continuar durante horas ou mesmo dias. Usando a imagem do tratamento da cárie, poderemos comparar a dor que a vaca sentirá de volta ao estábulo, àquela que reaparece quando chegamos a casa, vindos do dentista. No caso dos humanos quase sempre o médico previu as consequências das suas acções e receitou-nos um analgésico, tipo aspirina, que torna a recuperação menos… dolorosa. No caso das vacas leiteiras, mais uma vez uma série de factores boicotam o tratamento mais adequado – incapacidade de identificar sinais de dor devido ao caracter estóico dos ruminantes, preço dos medicamentos analgésicos, necessidade de descartar leite por razões de segurança alimentar etc…

Num outro estudo em curso tentaremos demonstrar que a analgesia pós-intervenção tem vantagens não só em termos de bem-estar (que são óbvias) como também económicas. Num pequeno estudo preliminar verificámos que as vacas que recebiam um analgésico (carprofeno) após aparagem curativa das unhas, aumentavam a produção de leite mais cedo do que as que eram apenas tratadas localmente. Pretendemos agora comprovar esta suspeita com um maior número de animais. Ou seja, estamos a comparar o bem-estar daqueles que apenas brocam os dentes com aqueles que são submetidos ao mesmo tratamento mas que depois tomam a aspirina quando chegam a casa.

Finalemente, é essencial transmitir a ideia de que há medidas que podem ajudar a reduzir a dor após a aparagem curativa de lesões podais e que não dependem de medicamentos. Essas podem ser postas em prática com poucos custos e por qualquer pessoa. Refiro-me à colocação de tacos na unha sã, de forma a evitar o peso sobre a unha com lesão/dor, ou à mudança do animal para um parque com piso de palha ou areia ou ainda à ordenha do animal na enfermaria onde ficará a recuperar a lesão, etc. Estas medidas são extremamente simples mas, se calhar por causa disso, são muitas vezes menosprezadas.

De qualquer maneira o mais importante é ter a certeza que os operadores, sejam médicos-veterinários, produtores ou técnicos na área da aparagem de unhas de bovinos, tenham noção da dor que podem estar a provocar. Só com esse reconhecimento e com a admissão das suas responsabilidades no seu combate, poderemos esperar que a dor seja minimizada no tratamento de lesões podais de vacas leiteiras. Para bem dos animais mas também da produção.

Nota: Este artigo foi publicado na edição n.º 29 da Revista Agrotec.

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