Açores: Graciosa tem condições para aumentar a produção de alho

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Texto: Ana Clara | Fotos: Daniela Faria 

No segundo dia do Festival do Alho da Graciosa, que decorreu este sábado, 2 de fevereiro, no Centro Cultural da Graciosa, teve lugar uma conferência com um painel dedicado ao tema "Características e Produção".

Foram vários os oradores presentes e que abordaram as mais variadas temáticas: desde a produção, à comercialização, passando pela certificação e aplicação do alho à gastronomia e restauração.

Adelaide Mendes, do Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas (IAMA), fez uma comunicação sobre a Graciosa e o alho, focada na questão da certificação, com vista a alcançar «melhores garantias para o consumidor».

«O alho da Graciosa é o mesmo que tem origem na Ásia Central e na Europa Mediterrânica. É utilizado como alimento e como produto medicinal. Um bulbo (cabeça) pode ter entre 8 a 25 dentes, em média. Normalmente falamos em alho branco, rosa ou roxo, com um sabor característico, benefícios para a saúde e valor nutritivo», começou por dizer.

No que respeita ao alho da Graciosa, «este foi introduzido desde o início das primeiras povoações, no século XV, foi passando de geração em geração, e deve-se essencialmente às condições climáticas aqui existentes. Os Açores têm condições diferentes e, por isso, permitem ter produtos com características específicas», realçou Adelaide Mendes.

O alho da ilha Graciosa é reconhecido por ser grande, 10 a 12 dentes, e por ter uma cor rosa e/ou avermelhada, com um cheiro e sabor intenso, explicou a especialista. 

«Tem sido, desde sempre, produzido e comercializado por pequenos produtores. Em 2017, na sequência do Plano Estratégico e Operacional para a Valorização dos Produtos Agroalimentares da ilha Graciosa, juntamente com a Adega Cooperativa Agrícola da Ilha Graciosa, começou-se a trabalhar na divulgação, produção e comercialização destes produtos, e, em especial, o alho, a meloa e o vinho», acrescentou a responsável.

Neste momento o alho da Graciosa encontra-se em fase de certificação, exigida pela União Europeia (UE), em matéria de preservação de tradições gastronómicas e ancestrais.

«É essencial garantir as características associadas à origem, como o ananás DOP de São Miguel, o maracujá de São Miguel, queijo de São Jorge, queijo do Pico, a meloa de Santa Maria, e o alho da Graciosa», disse Adelaide Mendes, lembrando que «o que se pretende é que haja uma concorrência leal entre os diferentes produtores».

Para proteger o produto, é necessário, em primeiro lugar, «proteger a qualidade mas também garantir que as características do produto se mantêm».

Entre essas exigências está a de «um modo de produção próprio, a sua origem geográfica e o objetivo é que o consumidor saiba exatamente o que está a consumir», disse Adelaide Mendes.

«Parece-nos a nós que o alho poderá ser certificado com uma identificação geográfica protegida, porque ele é originário de um local determinado, tem qualidades e reputação conhecidas. Para fazermos o caderno de especificações e para que a UE proteja este produto, começamos pela delimitação geográfica, que será todo o alho produzido na ilha. Depois é essencial ainda caracterizá-lo de forma química. As análises vão ser feitas com a produção de 2019, nomeadamente as que são obrigatórias para a rotulagem obrigatória pela UE», sustentou a responsável.

Benefícios para a saúde

Graça Silveira, da Universidade dos Açores, foi outra das oradoras da conferência, tendo abordado o tema do alho na saúde, recordando que, em termos históricos, o alho sempre esteve associado a questões medicinais.

Entre as várias mais valias do alho para a saúde, destacou a capacidade de curar algumas doenças degenerativas. O princípio ativo mais importante do alho é a alicina que intervém simultaneamente a nível imuno, onco e microbiológico.

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Além disso, o alho estimula o sistema imunitário, e nas alergias atua como anti-histamínico, tem ainda uma ação antibiótica, anti-viral e anti-fúngica direta.

O alho possui propriedades anti-inflamatórias e antibióticas naturais e é ainda antimicrobiano, antioxidante e anticancerígeno. Além disso, esre produto age como protetor cardiovascular, protegendo não só o funcionamento do coração, mas também da corrente sanguínea.

É um produto que se destaca pela capacidade de eliminar vírus, fungos e bactérias. Por essa razão, é conhecido como um excelente remédio caseiro no combate a doenças que comprometem o sistema respiratório, sejam esses problemas crónicos ou mais simples.

Já António Cavaco, Confrade Mor da Confraria dos Gastrónomos dos Açores, falou sobre a conjugação entre os produtos locais e a gastronomia.

O caso da Agrialho

José Castro, da Agrialho, empresa de produção e transformação de alho, situada na região Oeste de Portugal Continental, abordou o tema da transformação do alho.

Após um vídeo onde o público ficou a conhecer o processo de transformação, o responsável explicou todas as fases, desde a recolha do alho nos campos (o alho da empresa é trabalhado em Espanha) passando pela limpeza até ao processamento.

«Temos que ver quando chega um camião qual a rentabilidade que iremos ter. Cada camião tem entre 18 a 20 toneladas de mercadoria, mas há dentes podres. Normalmente temos 60% de alho que aproveitamos e 40% de alho que não é aproveitado. Destes 40% de alho que não se aproveita, usamos para fazer massa de alho ou até mesmo para alho desidratado», exemplificou.

Para ver os produtos da Agrialho aceda aqui. A Agrialho oferece, desta forma, uma grande variedade de produtos de alho para fabricantes de alimentos, restaurantes e serviços de alimentação.

José Castro realçou que cada etapa de processamento dos produtos é feita «cuidadosamente para garantir a máxima qualidade e frescura mantendo todas as características naturais e saudáveis».

Aceda igualmente ao catálogo da Agrialho. 

Bruno Moura, da Agromais, analisou o tema da organização de produtos agrícolas, começando por explicar o contexto da marca, com mais de 30 anos de experiência e que se assume como uma das maiores organizações de produtores de cereais e hortícolas de Portugal.

Entre os principais produtos destacam-se a batata, a abóbora, o alho, a cebola, brócolo, ervilha, milho, pimento, tomate, etc.

No que toca ao alho, o responsável disse que esta tem sido uma aposta crescente para a Agromais.

A empresa conta com ensaios de experimentação e mecanização de todas as operações a nível do campo.

A sementeira do alho ocorre entre outubro e novembro, sendo colhido entre finais de maio e junho.

No que respeita às condições climáticas, o alho é uma cultura de clima frio, suportando bem baixas temperaturas, sendo, inclusive, algo resistente a geadas.

A rega e o controlo das doenças/pragas/infestantes assumem uma importância para que a qualidade seja elevada, sendo que a produção de alho é certificada pelo referencial GLOBALGAP.

«Viragem e um novo ponto de partida para a produção»

O Diretor Regional da Agricultura dos Açores, José Élio Ventura, afirmou na sessão se encerramento da conferência, que há condições para produzir mais alho na Graciosa, «tirando melhor partido das infraestruturas existentes e do apoio técnico, para valorizar mais uma produção tradicional, responder às exigências do mercado e dos consumidores».

«Trata-se de um produto com caraterísticas qualitativas intrínsecas ligadas às condições locais de solo, de clima, do modo de produção e da sua base genética, que lhe dão propriedades olfativas e gustativas muito agradáveis e intensas», referiu José Élio Ventura, acrescentando que o alho da Graciosa resulta do «saber de muitos anos, adquirido por via de muita experiência de vida, que não deve ser esquecida, mas que tem de ser ajustada aos novos tempos e às exigências dos mercados».

«Este deverá ser o momento para conseguirmos uma viragem e um novo ponto de partida para a produção, transformação e promoção deste produto, que possui uma excelente reputação a nível local e nas ilhas mais próximas», frisou José Élio Ventura, para quem importa aproveitar a associação do alho à ‘Marca Açores’ para dar a este produto uma nova dimensão, quer regional, quer nacional.

Para o Diretor Regional, devem ainda ser consideradas outras estratégias, como a produção de alho em modo biológico ou o facto de ser produzido numa Reserva da Biosfera, o que lhe pode permitir ostentar o símbolo de produto da ‘Biosfera Açores’.

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Paralelamente, pode e deve avançar o reconhecimento e a proteção da designação ‘Alho da Graciosa’ como Indicação Geográfica Protegida, considerando a sua homogeneidade, características e identidade próprias.

«Esta denominação pode constituir uma proteção, trazer mais valias aos produtores, melhorando o seu rendimento, promovendo novas oportunidades de negócio e contribuindo para o crescimento e modernização da economia da ilha», disse José Élio Ventura.

No final do ano passado existiam na Graciosa cerca de uma dezena de produtores de alho, numa área aproximada de sete hectares, com uma produção de cerca de 25 toneladas.

Recorde-se que a Graciosa, com cerca de 60 quilómetros quadrados, é a segunda ilha mais pequena dos Açores, depois do Corvo, e a mais a norte das cinco que compõem o grupo central do arquipélago, onde se incluem Terceira, São Jorge, Pico e Faial.

O Festival do Alho, que decorreu nos dias 1 e 2 de fevereiro, foi organizado pela Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo - Associação Empresarial das Ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa - juntamente com o Núcleo Empresarial da Ilha da Graciosa.

Esta primeira edição foi iniciativa que contou igualmente com a parceira da vice-presidência do Governo Regional, através da SDEA, no âmbito das ações de Capacitação das Empresas Regionais.

Leia a reportagem completa do I Festival do Alho na edição n.º 30 da Revista AGROTEC, que será em breve publicada.

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