A Agricultura em Portugal

Será possível conciliar a tentativa de autossuficiência em produtos agrícolas com o aumento da área de agricultura biológica?

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Por J. Quelhas dos Santos | Prof. Cat. Jubilado do I.S. de Agronomia

No início de setembro último, alguns Órgãos de Comunicação Social transmitiram, com uma diferença de 2 a 3 dias, afirmações de dois dos mais altos responsáveis do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural que, sob pena de se criarem ilusões e/ou se estimularem certas práticas agrícolas, devem ser esclarecidas. É, apenas, com este último objetivo que, face á responsabilidade inerente ao que durante cerca de 50 anos ensinámos e escrevemos, apresentamos, numa breve síntese, algumas considerações sobre a pergunta formulada no título deste artigo.

Vejamos, em primeiro lugar, o problema da hipotética autossuficiência do país em produtos agrícolas, interpretada numa perspetiva de equilíbrio entre o que produzimos e o que consumimos.

Supomos ser do conhecimento geral que, sobretudo em consequência dos avanços verificados com a descoberta e divulgação de novos fatores de produção vegetal, nomeadamente no que respeita ao maior potencial genético de produção das espécies cultivadas e à criação de melhores condições de nutrição e defesa das plantas, tem sido possível obter acentuados aumentos de produção unitária nas culturas efectuadas na quase totalidade dos condicionalismos edafoclimáticos predominantes no país.

Mesmo assim, como também é do conhecimento geral, o país continua a apresentar um elevado deficit de alimentos de origem vegetal. Daí que não seria de estranhar (pessoalmente até aplaudiríamos com muito entusiasmo) se ouvíssemos os nossos governantes reconhecerem uma tal realidade e que, por isso, iriam ser tomadas medidas suscetíveis de contribuírem para aumentar o reduzido grau de autossuficiência que, em relação àqueles produtos, ainda se se verificava em Portugal.

Uma tal afirmação, embora admissível num contexto de natureza política, pode não ser inteiramente correta em termos económico e/ou técnico científicos.

De facto, quaisquer tentativas para se obter a autossuficiência teriam de passar, necessariamente, por um elevado aumento das atuais áreas das nossas principais culturas e/ou das suas produções unitárias.

Quanto à primeira hipótese, temos as maiores dúvidas de que, em termos económicos (e até mesmo ecológicos), seja aconselhável, para as culturas tradicionais, nomeadamente dos cereais de outono/inverno, aumentar as áreas para valores semelhantes aos que se verificavam até à entrada em vigor da vulgarmente chamada PAC (Política Agrícola Comum).

Na realidade, supomos ser bem conhecido o facto de, para as condições agroclimáticas predominantes no País, as produções unitárias obtidas, na grande maioria dos casos, continuariam a ser demasiado baixas para suportarem, em termos de custos de produção, a concorrência com as que se verificam na quase totalidade dos outros países de UE.

Aliás, um tal procedimento viria também, em muitos casos, a contribuir para um aumento da sua já elevada fragilidade ecológica, nomeadamente em termos de erodibilidade dos solos.

Acreditamos, isso sim, que, com as necessárias precauções em termos ecológicos e económicos, se devam apoiar os passos que estão começando a ser dados quanto à instalação de algumas «novas plantas» e à expansão físico/económica de culturas que, como é o caso da vinha, parece terem mercado garantido e, de um modo geral, com condições de produção mais favoráveis relativamente às da maior parte dos outros países de UE.

Se assim for, e se a afirmação sobre autossuficiência for interpretada em termos de equilíbrio de balança comercial, a diferença poderá ser consideravelmente menor, mas não cremos que possa ser anulada.

De facto, a não ser em condições muito especiais e sempre de representação percentual muito reduzida, as produções unitárias na «agricultura biológica», serão muito mais baixas, tal facto significando que, quando deixarem de ser subsidiadas, para que o equilíbrio se pudesse manter, os produtos ditos «biológicos» terão de se vender a preços tão elevados que não estariam ao alcance da grande maioria da população. E os equilíbrios, independentemente do significado em que sejam tomados, até teriam maior tendência para se desequilibrarem!

No que se refere à obtenção de maiores produções unitárias, cremos que ainda será certamente possível (sempre que não existam fatores limitantes que, em termos práticos e/ou económicos, seja desaconselhável remover) aumentar consideravelmente a influência do uso dos já citados fatores de produção.

Para isso, terá de se recorrer, cada vez mais, ao cultivo de espécies geneticamente mais produtivas e, sempre que possível, mais capazes de se defenderem das pragas e doenças, de serem mais resistentes a certas características desfavoráveis dos solos (nomeadamente reação e salinidade) e dotadas de maior capacidade de absorção dos nutrientes existentes de forma natural nos solos ou neles incorporados sob a forma de adubos e outros fertilizantes.

(Continua).

Nota: Este artigo foi publicado na edição n.º 22 da Revista Agrotec.

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