Projeto algarvio desenvolve "Super-Medronheiros"

O semanário regional algarvio Barlavento, encontrou-se, na interior da freguesia de Bensafrim, uma empresa produtora de Super-Medronheiros, a Herdade da Corte Velada, que se estende por 271 hectares de terreno.

Após a destruição através do fogo da Herdade, na sua maioria povoada por eucalipto, durante os grandes incêndios de 2003, um casal de noruegueses comprou esta herdade para avançar com um projeto de reflorestamento pioneiro no Algarve, avaliado, em 2009, em 69 milhões de euros. Para já estão plantados 180 hectares, entre instalações de raiz e recuperação do que já existia. E essa é uma das diferenças deste projeto.

Contudo, é necessário ver primeiro o que se faz no interior da estufa futurista, para se perceber como, ao longo dos últimos seis anos, esta propriedade isolada tem servido de base para uma investigação sobre como rentabilizar a produção de medronheiros, através da clonagem destas plantas.
Ao «barlavento», Ricardo Jacinto, diretor do projeto e investigador, contou que, no início, «a solução foi reconverter o eucaliptal ardido para espécies autóctones como o medronheiro, que tem sido uma aposta de sucesso, e o sobreiro», que não tem tido tanto êxito, devido a diversos fatores como o clima. Para conseguir um sobreiro adulto há que plantar 50, presume Ricardo Jacinto, acrescentando que esta proporção torna-se incompatível para quem quer tirar rentabilidade de um investimento. Já o medronheiro é uma solução boa, pois garante produção anual.

A questão que se colocava é que estas espécies seminais (de semente) – disponíveis no mercado – têm limitações.
«Nós podíamos fazer o melhoramento da planta, para selecionar as mais adequadas a determinadas zonas e tipos de produção», afirmou. Ou seja, há diversas especificidades que influenciam as plantações, como a encosta ser virada a sul ou a norte.
Há plantas seminais, como o medronheiro, que são consideradas selvagens. Não mantém as características da planta mãe. Trocado por miúdos, o medronheiro pode ser muito bom, mas, se «vamos lá tirar as sementes, o que vai nascer degenera. Terá as características todas da espécie em proporções que não conhecemos», explicou o diretor.
Ora, se um produtor investe numa plantação seminal, nunca saberá qual será a qualidade e quantidade. Só consegue saber depois dos frutos nascerem. E, regra geral, em cem medronheiros, na melhor das hipóteses, só dez serão mesmo bons.

Não é, portanto, rentável. Esta realidade pode, porém, ser alterada através de uma investigação que origine plantas padronizadas e selecionadas, à semelhança do que já acontece com a vinha. A investigação feita nesta estufa, que ascendeu a 500 mil euros e é um protótipo único desenvolvido pela equipa da Corte Velada, mudará esta realidade. «Permite uma coisa simples que é fazer o enraizamento das estacas», para que o medronheiro conserve as características das plantas mães. Esse processo tem que ser feito vegetativamente e não por semente.

A invulgar estufa, tem, por exemplo, vidros escolhidos a dedo para deixar entrar apenas o espetro de luz necessário para que a planta enraíze. «O controlo de temperatura e humidade faz com que se mantenham as estacas vivas artificialmente durante o período que precisamos, até elas enraizarem, e já obtivemos aqui sucesso acima de 90 por cento», confidenciou Ricardo Jacinto. Antes era raro ultrapassar a meta dos 30 por cento.
As plantas para clonagem têm, todavia, que ser as melhores das melhores. «Identificamos, na serra, as plantas em conjunto com os proprietários, sobretudo pessoas de uma certa idade que toda a vida apanharam medronho naquele terreno. Esses medronheiros são trazidos para aqui, são postos em enraizamento e aqueles que nos oferecem a percentagem de enraizamento elevada, são selecionados para clonagem», afirmou Ricardo Jacinto. Assim, além do medronhal plantado, há um trabalho de prospeção para reunir e clonar as plantas com mais potencialidade entre Silves e Aljezur.

O passo seguinte é um processo biológico para promover o desenvolvimento da planta e sua adaptação às condições exteriores, para que resistam «a condições tão adversas como as que nós temos aqui no verão», justifica. Passam então para um viveiro. Logo depois para os proprietários. «As gerações anteriores são instaladas para verificar a resistência que têm. Se for positiva, são selecionadas para venda. É nesse ponto que estamos agora», concluiu o diretor do projeto.
Entusiasmo com moderação
A clonagem, além de servir para rentabilizar o investimento na herdade com a colocação de produtos no mercado, também permitirá a vendas das plantas a proprietários de terrenos que queiram apostar neste nicho de mercado. Ainda assim, Ricardo Jacinto, diretor do projeto Corte Velada, alerta para a moderação do entusiasmo, pois estes clones garantem uma super produção. «A maioria dos produtores têm na sua produção um, dois ou três medronheiros que são bons. Com os clones serão todos bons e num hectare podem ter 400 plantas excelentes».

A produção vai coincidir toda e a apanha terá que ser mais pensada, pois os clones tendem também a concentrar a sua produção num período mais curto do que o habitual. Ainda assim, segundo o técnico, os clones não eliminam a apanha gradual, pois a maturação continua a ser progressiva, ainda que num espaço menos longo. A outra vantagem é que, ao fim do segundo ano, as plantas estão todas carregadas de flor, o que quer dizer que no terceiro ano entram em produção, ao contrário das seminais, que só ao fim de seis ou sete anos estão nesse estágio.

Hotel avança com PDM

O inovador projeto no barrocal do concelho lacobrigense contempla também uma unidade hoteleira, ainda que, neste caso, o empreendimento sirva para apoiar o investimento ambiental e de investigação e não o contrário. Até aqui, a Corte Velada tem-se apoiado na componente florestal e já avançou bastante, mas com a aprovação do Plano Diretor Municipal (PDM) será possível os empresários noruegueses começarem a estruturar o alojamento.
«Está prevista a construção de unidades hoteleiras, para que quem nos visite pernoite e participe nas atividades da herdade», explicou o diretor Ricardo Jacinto em entrevista ao «barlavento».

Será um turismo rural, muito procurado pelos mercados externos, apoiado pelas atividades rurais e pela componente científica, pois o turista poderá ver todo o processo desde a criação do clone de medronheiro até à obtenção da aguardente, adiantou.
No início, em 2009, quando o projeto foi apresentado e como o «barlavento» então noticiou, a ideia era ter uma capacidade de alojamento muito elevada, «mas esse número máximo é a muito longo prazo, pelo que a fase inicial será adaptada», justificou. Por acréscimo, os instrumentos de ordenamento do território não permitem avançar com uma instalação e impacto urbanístico daquela dimensão, numa área rústica. Assim, a componente imobiliária será dividida em fases de acordo com a procura. Para já, o hotel rural terá entre 80 e 100 quartos, sendo direcionado para o turismo de alta qualidade, de natureza.

Para a presidente da Câmara Municipal de Lagos, Joaquina Matos, não há motivos para discordar de que este é um «projeto importante, estruturante, na freguesia de Bensafrim, numa zona do barrocal e da serra. O empreendimento enquadra-se no âmbito do núcleo de desenvolvimento económico, com o objetivo do aproveitamento da floresta, através da rentabilização do medronho em várias vertentes. É um condado, com uma herdade de 271 hectares, com 72 mil árvores, 54 dos quais são medronheiros plantados, e oito barragens construídas», enumera a autarca. Tem um centro de estudos com estufa para clonagem do medronho.
«Este projeto dá um importante contributo para a revitalização do interior do concelho, em termos de trabalho, ambientais e ecológicos». Na verdade nem restam dúvidas que é um projeto com envergadura ambiental e inovadora. Em 2009, a perspetiva de investimento era de 69 milhões. Apesar de o valor definido ter sofrido alterações ao longo do projeto, nesta altura já foram gastos seis milhões de euros.

Medronho fresco, desidratado ou em aguardente?

A ideia dos investidores noruegueses é tirar proveito da investigação e da seleção que criará estes super medronheiros. Esta espécie pode ser usada como planta ornamental ou para a produção de fruto, para a aguardente, venda em fresco ou desidratado. Industrialmente há aplicações cosméticas e farmacêuticas a serem estudadas noutros locais.
No caso da Corte Velada, a ideia é investir em três segmentos. Um será a planta ornamental, já que tem «um grande potencial», garantiu Ricardo Jacinto, diretor do projeto, que se desenvolve no interior do concelho de Lagos. Além de ser semelhante ao loureiro, por estar sempre verde, coincide a floração e os frutos ao mesmo tempo. Por sua vez, os frutos podem estar verdes, amarelos, laranja e vermelhos, num jogo de cores único.

Já no caso do fruto fresco ou desidratado, o desafio é a longo prazo, pois «ao longo dos próximos cinco ou seis anos, vamos estar ainda longe de conseguir que isto seja uma realidade, porque estamos ainda na fase de criar plantas para produzir esses frutos», argumentou. No entanto, a ideia é entrar no mercado alemão e centro europeu.
«O medronho, selvagem, até pode ter uma boa aparência», mas também um sabor desagradável. «Alguns são mesmo bons», afirmou. Por isso, esta clonagem e seleção permitirá seccionar a produção conforme o fim a que se destine. «Estamos na fase de instalação no terreno dos clones, para posterior avaliação e verificar se cumprem com a promessa que nos deixou a planta mãe», esclareceu. Até agora os resultados são excelentes.

É que, para trabalhar com estes mercados, são necessários contratos que exigem garantia de fornecimento nos timings acordados. Os medronhais que existem hoje (seminais) ainda não permitem dar esta garantia aos interessados alemães e do centro europeu que estão recetivos à compra de frutos vermelhos, mercado no qual o medronho pode entrar.
«O que temos previsto é, para o ano, começarmos a criar um edifício que albergará uma destilaria» dimensionada conforme a produção da herdade.
«Vamos estar capacitados para destilar, para conservar o fruto em frio, tendo em vista a venda do fruto fresco. Teremos também laboratórios que nos permitam fazer todo o tipo de análise e sermos totalmente independentes em termos da produção de aguardente, do fruto fresco, do fruto desidratado, porque é outra vertente que a indústria também procura», revelou o diretor. Desidratado, o medronho pode ser consumido com alguns cereais para pequeno-almoço, em bolos ou outra doçaria, exemplificou.

Os clones permitem que, caso haja excedente de fruto fresco produzido por um medronheiro, este seja escoado para aguardente, o que, até aqui, não acontece. A verdade é que esta investigação dá a oportunidade ao produtor de, pela primeira vez, escolher entre diversas opções. «É um investimento muito grande, pois a estrutura custou meio milhão, temos quatro funcionários, recorremos a estagiários recém-licenciados para nos irmos dotando de capacidade técnica», avançou ainda. Em conclusão, será um projeto que pode dar sustentabilidade ao ambiente e à agricultura, e dinamizar a serra, gerando riqueza. «Aqui estamos a aplicar o que lemos nos livros, que deve ser feito, mas que raramente avança», concluiu.

Trilhos inauguram no próximo mês

Há 14 quilómetros, distribuídos por três percursos, para descobrir a Herdade Corte Velada. Estes trilhos homologados são os únicos privados em toda a sua extensão, oferecendo segurança e o usufruto de uma paisagem de reflorestamento e de reconversão de todas as linhas de água, que antes estavam cobertas de mato.
«Estamos a limpar e a plantar galerias ripícolas com as espécies autóctones, para permitir que as pessoas circulem ao longo dessas linhas de água dentro de um bosque espontâneo, plantado, típico e com água», avançou Ricardo Jacinto. Os percursos pedestres e de BTT, que permite utilizar também os lagos para a pesca ou canoagem estarão abertos no próximo mês, quando o centro de apoio aos trilhos, com cafetaria e casas de banho seja inaugurado.
A condição é que terá que funcionar por marcação prévia, pois é um local tão isolado que não será possível estar aberto o local durante todo o dia, pelo menos numa primeira fase.

Oito barragens para não faltar água

A Herdade Corte Velada, em Lagos, já conta com oito barragens, de modo a acautelar uma reserva hídrica suficiente para os 271 hectares de área total. «A zona está numa área em que a pluviosidade é muito torrencial e, se não a cativarmos, quando ela cai, escoa-se e ao fim de uma hora já está no mar», explicou Ricardo Jacinto, diretor do projeto.
Se a água não for reservada, o projeto corre o risco de ficar sem este bem essencial. Mas há também o objetivo paisagístico e de recuperação de habitats, também no que toca a fauna, tentando que as espécies autóctones permaneçam na Herdade. Será uma mais-valia, por exemplo, para promover o birdwatching neste espaço, complementando toda a oferta do projeto.

Tornar a serra rentável evita incêndios

O projeto Corte Velada é um caso de sucesso, que mostra a possibilidade de industrializar com outros olhos. Ou seja, com a premissa da sustentabilidade, ultrapassando desafios, procurando soluções e sem ter como objetivo a massificação. Ricardo Jacinto, diretor deste projeto instalado na freguesia de Bensafrim, acredita que «há que criar postos de trabalho, onde não existem: na serra».

Uma consequência direta e benéfica para a economia e para o ambiente, logo à partida, será a diminuição de incêndios. Quando «temos pessoas na serra, que investem na instalação destes pomares, não tem interesse que arda. Mas se não houver lá nada, torna-se indiferente arder ou não», argumentou o diretor. E acrescenta, se houver investimento, mesmo de pequenos proprietários, é possível começar a criar uma malha aleatória, mas persistente na serra, pois o país não se pode permitir ter uma mancha florestal abandonada como acontece na atualidade.

O facto é que os apoios, por vezes, esbarram na burocracia. «Há apoios, mas fazer canalizá-las para situações novas é complicado. Acho incoerente que, para candidaturas de inovação técnica, de investigação, de desenvolver algo que ainda ninguém fez, exijam planos de retomo financeiro», critica Ricardo Jacinto.

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