“A Pós-Colheita começa desde que se plantam os Mirtilos”

producao-mirtilosA Técnica chilena Julia Pinto deslocou-se a Portugal no decorrer no ano passado, no âmbito de uma ação promovida pela AGIM, onde deu formação sobre preparação, colheita, controlo e conservação de pequenos frutos, com especial incidência no mirtilo. É Diretora Técnica do Comité de Arándanos do Chile. A AGROTEC (suplemento Pequenos Frutos) aproveitou a oportunidade para falar com esta profissional proveniente de um dos países mais avançados do mundo na produção de mirtilos.

Pequenos Frutos (AGROTEC): Na sua visita a Portugal passou por uma das principais regiões produtora, Sever do Vouga. O que encontrou?

Julia Pinto: Um belo país com gente muito comprometida e de grande hospitalidade. Encontrei uma zona de produção com muito boas condições para o cultivo do mirtilo e produtores com muitas expectativas: acredito que o cultivo do mirtilo trará muitos benefícios à região.

 julia-pintoJulia Pinto

AG: Quais são as principais diferenças entre a atual produção de mirtilos em Portugal e no Chile?

JP: A primeira grande diferença é o tamanho das explorações agrícolas, na zona produtora que visitei em Portugal, tratam-se de pequenos produtores de mirtilos, desde 1 ha até entre 3 a 5 ha. No Chile, as áreas são de maior dimensão, desde 5 até mais de 40 ha, dependendo da zona produtiva. Outra diferença é que alguns dos produtores visitados têm uma relação anterior direta com o agro ou o campo e outros não a têm. Estes últimos necessitam, obviamente, de apoio na parte técnica, dado que estão a investir num cultivo que, sendo nobre, necessita de muitos cuidados.

Relativamente ao uso e escolha de variedades, também existem diferenças: na zona visitada existem muitas variedades na mesma unidade produtiva. No Chile, este cenário foi-se alterando e existe uma seleção de variedades por unidade produtiva, focalizada na localização agroclimática, sazonalidade e produtividade, o que permite uma melhor gestão da produção.

AG: Quais foram os pontos fortes e fracos que encontrou?

JP: Um dos pontos fortes é o facto de existir apoio e incentivo à produção de mirtilos, o que permite uma boa instalação do cultivo, dado que se pode fazer uma boa gestão do solo, uma boa instalação de rega, ter todas as precauções com a proteção do cultivo, etc.: por esta razão é fundamental a seleção da variedade.

Para além disto, existe um capital profissional muito importante, onde o produtor se pode apoiar: a difusão e transferência de conhecimento técnico aos produtores é fundamental. A AGIM é um exemplo de apoio, tem muito bons profissionais e, para além disso, tem uma infraestrutura que permite potenciar o desenvolvimento.

Por outro lado, existe o mercado de curta e média distância, que permite uma boa comercialização dos mirtilos.

O principal ponto fraco, na minha opinião, é o estabelecimento de variedades de mirtilos em zonas que não vão funcionar bem em termos agroclimáticos. Atualmente, existem inúmeras variedades de alta produtividade, por isso não faz sentido arriscar-se a colocar variedades num lugar desadequado.

Paralelamente, é importante que as expectativas estejam de acordo ao que é um negócio agrícola, pensado para o médio e longo prazo.

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AG: Quais foram as principais recomendações que a Julia deu?

JP: Variedades com uma localização agroclimática adequada, ou seja, selecionar bem as variedades. Conhecer muito bem o clima da zona, registar os dados históricos, precipitações em épocas de floração e colheita, épocas de congelação (duração e intensidade), temperaturas no período de colheita.

Monitorizar as pragas e doenças, para preparar bons programas fitosanitários, que permitam não ter problemas de produtividade e de pós-colheita. Trabalhar desde a colheita ao consumidor final a cadeia de frio. A cadeia começa desde o momento em que se tira a fruta da planta e termina quando chega ao consumidor final.

A qualidade da fruta faz-se no campo, logo, apenas se deve aplicar as tecnologias de pós-colheita para manter o fruto.

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AG: Portugal tem menos necessidade de conservação do mirtilo do que outros países, como por exemplo o Chile, devido à sua localização geográfica, considera isso uma vantagem competitiva significativa?

JP: Efetivamente, a necessidade de conservação ou vida útil são diferentes. No Chile o fruto tem que viajar muitos dias, estamos longe dos grandes consumidores de mirtilo.

Portugal está mais perto, porém, isto não quer dizer que não se deve preocupar. O consumidor quer um fruto fresco, redondo, firme, com floração, bom sabor, etc. Para se conseguir isto deve-se trabalhar a vida útil do produto, conhecer muito bem as variedades em termos de pós-colheita, a que mercados se deve enviar, qual o circuito que a fruta realiza, que temperaturas se maneiam nas câmaras de frio, que trajeto faz a fruta, etc.

AG: O significativo aumento da produção portuguesa de mirtilo para o exterior nos meses de setembro e outubro poderá “incomodar” as exportações do Chile para a Europa, que até agora se faziam sem concorrência?

JP: Penso que é muito complementar e quanto mais se consuma no período de colheita europeu melhor será para o Chile: há que gerar uma oferta para que o consumidor possa usufruir do produto durante todo o ano.

AG: Diz-se que a pós-colheita da fruta começa com a floração. Quais são os cuidados/procedimentos que se deve ter em termos de nutrição da planta?

JP: A pós-colheita começa desde que se plantam os mirtilos: se for efetuado um bom trabalho de instalação do cultivo, com a variedade adequada no lugar adequado, já se está a ganhar em vários parâmetros. A nutrição é fundamental para a qualidade do fruto: deve-se ter uma planta equilibrada, não abusar do nitrogénio, ter um sistema radicular que permita uma adequada alimentação, conhecer as necessidades da planta, realizar uma análise foliar e do solo.

AG: Quais são os fungos que podem comprometer a conservação do fruto e como se deve atuar em campo?

JP: Botrytis é o principal fungo de pós colheita e deve-se começar a combatê-lo na pré colheita.

É um fungo que afeta a produtividade, dado que pode levar à perda de flores por elevadas infestações e na colheita perde-se fruta que não pode ser embalada por estar com podridão.

Para além disso, se lhe forem dadas condições favoráveis, o fungo expressa-se no pós colheita e contamina os outros frutos. Deve-se realizar um bom programa fitossanitário que abranja desde os inícios da floração até aos finais da mesma, compreendendo assim a pré colheita, sobretudo se estiverem reunidas as condições de temperatura e humidade para a disseminação do fungo.

AG: Como é colhido o fruto no Chile? À mão ou mecanicamente?

JP: No Chile, para exportação em fresco, colhe-se à mão. Para a indústria começou-se a utilizar máquinas, mas isto acontece quando a fruta não está apta para o mercado em fresco.

AG: Qual é o impacto da forma que a fruta é colhida e a performance pós colheita?

JP: É fundamental realizar uma boa colheita. É um fruto nobre mas, tal como outros, é sensível a contusões ou à desidratação. Por isto, é essencial que os colhedores o façam com cuidado e que coloquem o fruto à sombra rapidamente.

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AG: Qual é o ponto ideal de maturação da fruta para colheita?

JP: A cor é o parâmetro usado: que esteja com 90% do fruto coberto de cor azul, sem apresentar zonas verdes. Mas também é importante ir à exploração colher quando exista 5% de fruta pronta: não é bom azular a exploração, dado que a fruta demasiado madura tem menor vida pós colheita. A frequência de colheita também é importante. Para além disso, não se deve deixa fruta que esteja pronta na planta, porque na próxima passagem ela já vai estar demasiado madura.

AG: Quanto tempo é possível armazenar o mirtilo na câmara de frio?

JP: Depende das variedades, existem algumas de menor vida pós colheita. Mas, em geral, se existe uma boa matéria prima, ou seja, fruta de qualidade e condição, complementado com uma boa colheita e um bom sistema de frio, pode conservar-se até mais de 50 dias.

AG: Quanto tempo demora o fruto chileno a chegar ao consumidor europeu desde a colheita?

JP: No trânsito marítimo são cerca de 18 dias. A isto há que somar cerca de 3 dias a montante, que perfaz desde a colheita ao porto de origem, e cerca de 5 dias a jusante, do porto de destino às prateleiras.

AG: Como é que olha para o futuro do mirtilo a nível global? Considera a hipótese de, num futuro próximo, existir sobreprodução?

JP: O consumo aumentou nos últimos anos e não se prevê que exista uma quebra. Espero que continuem a aumentar os consumidores de mirtilo e que os que já conhecem o fruto e o apreciam aumentem o seu consumo. Para isto acontecer, o importante é entregar um bom produto, de qualidade.

Por: João Duarte Barbosa e Bernardo Madeira

In Pequenos Frutos 8