ISA: Ciência Agrária com Valor Internacional

O desenvolvimento da agricultura em Portugal é indissociável do aumento das competências da nova geração de agricultores, a mais bem preparada de sempre do ponto de vista científico e até empresarial. Uma parte dessa vanguarda que traz ciência para o campo, novas formas de pensar e de fazer, é formada no Instituto Superior de Agronomia (ISA), uma das mais qualificadas escolas de Ciências Agrárias do país e uma das mais reconhecidas internacionalmente.

O laboratório de mentalidades e novas competências que empurraram o setor agrícola português para níveis de excelência e realização que pareceriam impossíveis até há poucos anos, tornando a agricultura e as áreas conexas setores de vanguarda científica e económica, faz-se nestes 100 hectares de tranquilidade, edifícios históricos e memórias centenárias.
A agricultura tradicional como modelo económico está em vias de extinção. A experiência de pouco vale sem Ciência Agrária, sobretudo nestes tempos de desafio e exigência competitiva, de mercados complexos e altamente exigentes. O sucesso nos campos agrícolas faz-se agora da mistura equilibrada entre as necessidades do progresso e o conhecimento profundo sobre os limites da terra.
No ISA ensina-se ciência sustentável há mais de 100 anos, ajustada aos desafios de cada tempo.

Criado em dezembro de 1910, o Instituto Superior de Agronomia segue uma linha natural de sucessão que começara em 1852, no reinado de D. Maria II, com o Instituto Agrícola e Escola Regional de Lisboa. No contexto agrário oitocentista despontara um imperativo científico rumo aos campos, a par das preocupações de avaliação de recursos e ordenamento e aproveitamento do território.

Estes movimentos impulsionaram a agronomia e a silvicultura, abrindo caminho para mais tarde o ensino e a investigação agronómica se concentrarem no que eram as lacunas de abastecimento de cereais. Focalizado nessa necessidade e na forma de a resolver, o corpo docente e os investigadores do ISA foram a vanguarda de difusão de técnicas para o aumento e para a melhoria da produção, ao mesmo tempo promovendo a gestão racional do território por via da florestação, do cultivo e do regadio.
Nos anos 50, o país agrícola já tinha mudado, mercê do trabalho de engenheiros agrónomos e silvicultores formados no ISA.

As duas décadas seguintes seriam marcadas por um ciclo diferente. Foram os anos da motomecanização e do uso intensivo de adubos, herbicidas e outros produtos para controlo de pragas, bem como o uso de sementes melhoradas e de rações na produção animal.
Enquanto a montante se agia para melhorar a produtividade dos campos, a jusante, a agroindústria sofria transformações tecnológicas importantes. Mas era no ensino que estava o coração da mudança e era a partir da sua capacidade de renovação que se produziam as novas competências e atitudes para gerir estes tempos de progresso agropecuário.
A adesão de Portugal à CEE (hoje União Europeia), em 1985, trouxe novos desafios, novas exigências técnico-científicas e fortes impactos na agricultura. A concorrência com agriculturas mais desenvolvidas, mais mecanizadas e melhor organizadas representou um abalo violento, com consequências económicas e sociais. A imposição de quotas de exportação ofereceu ainda mais dificuldades.

Mas também ao nível da legislação foram criados filtros que condicionaram a atividade agrícola, nomeadamente a segurança alimentar, que se tornou uma exigência presente em todas as fases da cadeia.
O ISA acompanhou as exigências decorrentes da adesão europeia repensando o ensino e a investigação. Nestes anos de adaptação ao novo modelo de convivência europeia foram criados cursos em novas áreas (Engenharia do Ambiente, Engenharia Alimentar e Biologia) e fortalecido o ensino ao nível do doutoramento e de pós-graduação, a investigação sobre os recursos naturais e o desenvolvimento sustentável.

Integrado na Universidade de Lisboa, com cerca de 2000 alunos no conjunto dos diversos graus de formação e um corpo docente de 130 professores, o ISA oferece hoje um conjunto alargado de graduação e pós-graduação nas áreas de Engenharia Agronómica, Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais, Engenharia Alimentar, Biologia e Engenharia do Ambiente, Engenharia Zootécnica e Arquitetura Paisagista, Ciências Gastronómicas, Viticultura e Enologia. Todos os anos saem desta escola cerca de 200 novos licenciados.
Todos os cursos do ISA estão acreditados pela Agência de Acreditação e Avaliação do Ensino Superior (A3ES). Em termos de empregabilidade dos diplomados, a taxa situa-se nos 90%, muito acima da média nacional, um sinal que os responsáveis pela gestão do instituto atribuem à aproximação que a escola procura promover entre os alunos e a realidade do mercado de trabalho, nomeadamente através de estágios curriculares e profissionais para realização de trabalhos de final de curso ou para recém-diplomados.

Ciência Viva

Escola onde se ensina ciência, a investigação desenvolvida no ISA está centrada nas seis unidades de I&D financiadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a entidade pública responsável pelo financiamento da investigação em ciência, tecnologia e inovação.
Cinco destas unidades de investigação situam-se na área das ciências agrárias e florestais, sendo a restante na área da Arquitetura Paisagista (estudos artísticos). Estas atividades incorporam uma forte componente de colaboração científica e técnica com instituições, empresas e associações de produtores.
Em 2013 estiveram em atividade 117 projetos de investigação, ocorreram duas centenas de publicações em revistas internacionais, várias patentes registadas e 140 alunos frequentaram aulas de doutoramento.

Recentemente, quatro destas seis unidades de investigação e desenvolvimento agregaram-se numa estrutura comum designada por LEAF (Centro de Investigação em Agronomia, Alimentos, Ambiente e Paisagem).
Esta nova unidade com alcance europeu reúne competências sobre toda a cadeia agroalimentar e pretende encontrar soluções eficazes para a conservação dos recursos naturais e para o aumento da produção e qualidade dos alimentos.
Durante o ano de 2013, o ISA participou ativamente em iniciativas que envolveram o Horizonte 2020, o Programa-Quadro europeu de investimento em investigação e inovação.
O orçamento comunitário ultrapassa os 77 mil milhões de euros para o período 2014-2020 e a estratégia está orientada em três pilares: a constituição de redes de excelência que envolvem entidades de investigação europeias, a liderança industrial e os desafios societários.

O ISA tem mantido uma forte ligação com instituições congéneres internacionais, tendo estabelecido 91 acordos com instituições de 23 países europeus, ao abrigo de projetos transnacionais e programas comunitários como o Erasmus, que em 2013/2014 trouxe a Lisboa 120 alunos estrangeiros. Há também protocolos com universidades e instituições de ensino dos PALOP, Timor, Brasil e América Latina, em alguns casos através do Centro de Estudos Tropicais para o Desenvolvimento (CENTROP). O Instituto Superior de Agronomia desenvolveu igualmente a cooperação com universidades de Angola e de Cabo Verde. Sinal desta cooperação é o facto de ter recebido, nos últimos três anos letivos, meia centena de alunos africanos e 110 brasileiros para formação graduada ou pós-graduada.

A ligação do Instituto ao mercado empresarial, como forma de transferir conhecimento de forma eficaz e útil, favorecendo um contexto de formação em mundo real, é operada através da INOVISA, a incubadora de empresas de base científica e tecnológica. Instalada no campus universitário, integra dezena e meia das chamadas start-up (embrionárias, com projetos inovadores em curso) e spinoff (derivadas de um grupo de pesquisa de uma empresa, de uma universidade ou centro de pesquisa), algumas já premiadas pelos seus projetos e ideias de negócio.

Desde 2001, O ISA oferece também cursos de especialização, formação avançada e pós-graduação em áreas temáticas emergentes (estatística, ambiente, viticultura e enologia, etc.), destinados a estudantes ou profissionais. Embora não confiram grau académico, estes cursos pretendem responder a necessidades de atualização de conhecimento sentida pelas empresas.

Pulmão verde

O campus universitário, onde o ISA está instalado desde 1917, ocupa a antiga Tapada Real de Alcântara, (hoje Tapada da Ajuda), na parte ocidental da cidade. É um pulmão verde de 100 hectares onde estão representadas cerca de três milhares de espécies vegetais, destacando-se a Reserva Botânica D. António Xavier Pereira Coutinho.
Instituída como terreno de caça em 1645, no reinado de D. João IV, a Tapada assim se manteve até ao reinado de D. José. Após a queda da monarquia, já renomeada Tapada da Ajuda, vive um período de indefinição e também de cobiça por parte de várias entidades até que, em 1910, o então ministro do Fomento, Manuel Brito Camacho, assinaria o despacho que cede a Tapada da Ajuda ao Instituto Superior de Agronomia.
“A Tapada estará aberta ao público permanentemente, servindo para passeio, para instrução dos agricultores ou de quaisquer outros visitantes, bem como para a lição de coisas, às crianças e alunos de todas as escolas”, determinava o documento assinado por Brito Camacho. A decisão ministerial incluía o Jardim Botânico da Ajuda, um exemplar tardio do Barroco anexado à Tapada para servir de infraestrutura de ensino e investigação.

No imenso perímetro verde está instalado um variado património histórico e arquitetónico, casos do Edifício Principal (1917) do ISA, concebido pelo arquiteto portuense Arnaldo Bermudes, um dos expoentes da arte nova em Portugal, do Observatório Astronómico (1867), do anfiteatro de pedra ou do Imponente Pavilhão de Exposições (1884).
Construído para a 3ª Exposição Agrícola, referencial pela sua arquitetura em ferro e vidro, destaca-se pelos três pavilhões com cúpulas hemisféricas. O engenheiro militar e arquiteto Luís Caetano Pedro de Ávila foi buscar a inspiração ao Palácio de Trocadero, em Paris, edificado para a exposição universal de 1878 e demolido 50 anos mais tarde.
“O pavilhão que Pedro de Ávila projetou enquadra-se corretamente na escala de presença da Tapada, abrindo o seu sorriso feito de harmonias e contrastes, de transparências e reflexos, ao espelho do rio da cidade”, escreveria o professor Carlos Antero Ferreira, no livro “Tapada da Ajuda – Palácio de Exposições”.

E tinha razão.

Por: Carlos Alberto Costa, in AGROTEC 13.