Gestão de água na agricultura: perspectivas e desafios

Por Joana Duarte, João Paulo Coutinho, Helder Fraga, João A. Santos e Aureliano C. Malheiro | Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, CITAB

alvaoBarragem do Alvão (Vila Real) em novembro de 2017.

Resumo

Em Portugal os verões são tipicamente quentes e secos, mas o ano de 2017 registou anomalias positivas de temperatura e negativas de precipitação, que se estenderam desde a primavera ao outono, originando situações de seca severa a extrema.

Sendo a agricultura uma atividade económica muito dependente das condições pedo-climáticas, torna-se particularmente vulnerável a condições ambientais como as de 2017.

Acresce que os modelos climáticos apontam como cenários futuros a intensificação destes fenómenos, levantando sérias preocupações sobre que medidas tomar para minimizar o seu impacto.

É assim imperativo aumentar a eficiência no uso de água, implementar os princípios de gestão integrada dos recursos hídricos, adaptar as práticas culturais e promover a consciencialização dos intervenientes na fileira agrícola, para que cada gota de água seja usada adequadamente.

Portugal é caracterizado climaticamente por uma significativa variabilidade intra e inter-anual. Contudo, 2017 foi particularmente quente e seco.

A título de exemplo e de acordo com dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (ipma.pt), no Outono de 2017 (setembro, outubro e novembro) registaram-se os valores médios de temperaturas máximas mais elevadas e os valores mais baixos de precipitação, para o trimestre em causa, desde 1931 (anteriormente o número de estações sobre as quais há valores normais era diminuta).

Notem-se ainda as condições meteorológicas verificadas em outubro (com temperaturas máximas ultrapassando os 30ºC e a ausência de precipitação em praticamente todo o território continental), e em novembro (o 8º mês consecutivo com valores de precipitação inferiores ao normal).

Verificaram-se assim condições de seca severa a extrema na totalidade do território continental.

Estas condições de prolongada elevada demanda atmosférica e reduzida disponibilidade hídrica no solo acarretaram impactos negativos para a agricultura, característica de seca agrícola.

Estas condicionantes pedo-climáticas potenciaram elevados stresses abióticos (hídrico e térmico) sobre as culturas (nomeadamente as culturais hortícolas com altas necessidades hídricas), aumentando significativamente o seu custo de produção.

No caso da cultura do arroz, a conjugação dos fatores de baixa disponibilidade hídrica (em particular na bacia hidrográfica do Sado), elevadas temperaturas e elevados índices de infestantes resultou na produção mais baixa dos últimos anos.

Nos pomares e vinhas de sequeiro, o stress hídrico tornou-se evidente de forma negativa na produção, enquanto em pomares e vinhas de regadio (mesmo que nem sempre tenha sido possível suprimir as necessidades das culturas) a produtividade aumentou relativamente ao ano anterior, fruto das favoráveis condições meteorológicas na floração e vingamento e reduzidos problemas fitossanitários.

Acresce que as altas temperaturas, que neste ano anteciparam as vindimas em 2-3 semanas, atrasaram ainda a entrada em período de repouso desta e outras culturas perenes, condicionando quer o acumular de reservas na planta para o ciclo vegetativo do ano seguinte, quer o planeamento dos trabalhos da poda.

As novas plantações e/ou sementeiras (como sejam os cereais de outono/inverno) foram atrasadas, pois dado o acentuado défice hídrico no solo e temperatura média elevada do ar, as sementes poderiam não germinar ou as jovens plantas vir a morrer.

Há igualmente que destacar, os impactos na pecuária, diretos pela falta de água e indiretos pela escassez de alimento – de notar que nas zonas afetadas pelos dramáticos incêndios de 2017, a situação tornou-se ainda mais crítica, uma vez que os pastos e os alimentos armazenados para alimentação animal foram destruídos.

(Continua)

Nota: Artigo publicado na edição n.º 27 da Revista AGROTEC no âmbito do dossier Rega.

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