Frutos do Bosque: Produção de Mirtilos em Vaso

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A AGROTEC (suplemento Pequenos Frutos) entrevistou Manuela Marques, da Frutos do Bosque (AGROTEC nº 11), a primeira produtora de mirtilos em vaso em Portugal, que nos contou um pouco da sua experiência. A formação académica desta produtora é pouco comum na área: Manuela Marques é licenciada em Administração Pública. A empresária começou a procurar informação e a adquirir conhecimento na produção de mirtilo, submetendo simultaneamente uma candidatura ao PRODER, vendo o seu projeto aprovado em 2011. Atualmente, tem instalado na sua exploração 3.400 m2 de vasos de mirtilo e está prestes a ampliar mais 2.400 m2.

Pequenos Frutos: Que variedades tem a produzir?

Manuela Marques: Neste momento, tenho quatro: Oneill, Camelia, Chandler e Rebel. Vou começar a produzir também Legacy e Suzyblue.

PF: E com produção em partes iguais?

MM: Não, estou a dar mais enfoque à produtividade de junho.

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Marca “Frutos do Bosque”

 PF: E porque é que a escolha recaiu nessas variedades?

MM: Doçura, timing da colheita, horas de frio e acima de tudo, resistência ao sol, porque eu tenho muita exposição solar.

PF: Teve como objetivo separar o tempo de colheita através da escolha de variedades?

MM: Sim, para não ficar tão dependente da mão-de-obra. Desta forma, consigo ter um calendário de colheita um pouco mais alargado. Não é muito significativo, mas permite-me não ter picos demasiados exigentes com recursos humanos.

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A produtora de Mirtilos Manuela Marques

PF: E qual é a sua produção?

MM: Tive no ano passado a minha primeira campanha, com o pomar instalado em 2012 e plantas adquiridas em 2011, com plantas de 1 ano e vasos de 1 litro. A produção foi de 2300 kg, aproximadamente. Este ano superei as 3 tn colhidas, e não tive mais por minha culpa. Podei mal as Rebel e as O’Neal, e fui penalizada com calibre de fruto.

PF: Em quanto tempo pensa que conseguirá entrar em “velocidade cruzeiro”?

MM: Talvez este ano (2015). Elas no primeiro ano já tiveram uma produtividade acima da média. Acredito que isso se deveu ao facto de a produção ser em vaso em detrimento do solo.

PF: Se a Manuela tivesse o dobro da produção, teria dificuldades em escoar o produto?

MM: Provavelmente, pelo menos com os dados do ano passado, daqui para a frente ainda não sei. O ano passado tive essa ideia porque fui forçada a comprar fruto a outros produtores.

PF: A quem vende a produção?

MM: No ano passado o grosso da produção foi vendido a um agente distribuidor. Este ano, e face aos preços pagos, optei por escoar tudo em local. Claro que vendi abaixo da média praticada a cliente final, mas ainda assim, acima do proposto pela distribuição. E gostei. Muitos dos meus clientes nunca tinham provado Mirtilo, ou tinham uma péssima referência sobre o sabor, muito graças ao que é normalmente vendido nas grandes superfícies. Bastou provarem Mirtilo doce (no ponto certo de maturação) a um preço acessível para se fidelizarem ao fruto!

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PF: O seu modo de produção é convencional, certo?

MM: Sim, na legislação europeia a produção em vaso não pode ser de outra forma, pois tem em conta o solo como fator acessório.

PF: Ao contrário da legislação norte-americana…

MM: Exato. A legislação europeia para cumprir as normas de agricultura biológica, comparativamente com a americana, é histérica. Por exemplo, uma das minhas principais referências do cultivo em vaso é americana – na Europa já existe produção em vaso, mas não em locais (pelo menos que eu conheça) com um clima parecido com o nosso, sobretudo no verão – e por isso consegui localizar esse produtor americano, na Flórida, e, curiosamente, ele produz em vaso e com certificado de produtor biológico.

PF: Quantas plantas tem?

MM: Neste momento tenho 1650, mais 650 que vão entrar para o ano.

PF: Que nutrientes aplica às plantas?

MM: Eu trabalho com adubo granulado, não com fertirrega. Neste momento estou a aplicar o Osmocote NPK (nitrogénio, fósforo e potássio), e tenho tido bons resultados.

PF: Qual é o tamanho dos vasos?

MM: De 50 litros. Fiz testes com vasos de 37 litros, mas optei por 50. Quero ficar com um palmo de terra sem raiz e no caso dos vasos de 37 litros isso não acontecia. A raiz da planta de mirtilo sai pelos buracos dos vasos e temos que estar a rodar os vasos para partir a raiz, caso contrário esta agarra-se ao solo e começar a absorver nutrientes que são prejudiciais para a produtividade.

PF: Com que frequência tem que rodar os vasos?

MM: Quando faço a poda, uma vez por ano. É o suficiente.

PF: Qual é a composição do substrato?

MM:É de 70% casca de pinho e 30% turfa, granulometria fina, no primeiro envasamento. Neste segundo envasamento, que estou a fazer agora, tem um rácio de 80/20, e estou a misturar granulometria média, para providenciar mais arejamento, pois ele compacta muito com a raiz: foi uma conta que eu não fiz inicialmente.

PF: E pragas? Alguma que a preocupasse até agora?

MM: Sim, tive uma praga de solos, conhecida como white grub, que pode ter uma série de progenitores. No meu caso, os únicos progenitores que eu consegui identificar foram da família das Cetónias. O problema de ter essa praga num vaso é que ela não tem para onde ir e, se eu tiver uma postura completa de, por exemplo, 30 ovos, e todos eles eclodirem, tenho 30 larvas a devorarem a raiz de uma planta e, em menos de uma semana, a raiz desaparece. Isso também acontece no solo, mas nesse caso elas acabam por se espalhar. Por outro lado, no solo, corremos o risco de ter o pomar completamente infetado, ao passo que no vaso posso ter uma planta afetada e a planta imediatamente seguinte não sofrer absolutamente nada com isso. Esta foi a minha praga mais preocupante, e tive-a logo no primeiro ano, onde apenas 180 plantas foram afetadas: tiveram que ser reenvasadas e removi os grubs, tentando identificar na altura que bichos seriam. No segundo ano, passou as 1600 plantas, ou seja, praticamente todo o pomar…

PF: E o que fez no segundo ano?

MM: Tive que recorrer a um ataque biológico, optei pelo nemátodo. Para além de não existir nenhum produto químico homologado para este combate, o nemátodo não deixa nenhum resíduo e, se não encontrar hospedeiro, morre por si só, o que permite não afetar o ecossistema. A última coisa que queria era colocar uma solução que se tornasse um problema.

PF: Teve sucesso?

MM: Sim, tive. Mas antes dos nemátodos tive uma grande ajuda por parte dos melros. Neste caso, foram meus aliados. À quantidade de larvas que comeram, foi mais do que justo a quantidade de fruta que também me levaram.

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white grub

PF: Se esta praga voltar a aparecer, mudará a estratégia?

MM: Não. Assim que apareça e identifique que são grubs, volto a pôr os nemátodos.

PF: Aqui na zona onde se encontra a sua produção, registam-se no verão temperaturas muito altas, como é que enfrenta esta condicionante?

MM: Sombra. Existem dois problemas que resultam do excesso de sol e calor: a raiz, porque está num vaso, e a própria planta, que a partir de determinadas temperaturas “fecha”. No meu caso vou optar por sombra. Estou neste momento a colocar cobertura no pomar.

PF: E como vai ser essa rede? Vai ser amovível?

MM:Integral, apenas cobertura. Sim, estou a tentar arranjar forma de a poder retirar.

PF: Fomos informados que a Frutos do Bosque irá produzir uma nova variedade de mirtilo em túneis, é verdade?

MM: Sim, é. Irei produzir uma variedade nova, a partir de 2015, que ainda não há na Europa, chamada Ventura.

PF: De onde é proveniente?

MM: Dos EUA.

PF: Vê como bons olhos este boom do mirtilo?

MM: Tenho algum receio na especulação que irá ser feita a partir dos produtores (do número de produtores).

PF: Acredita que o preço irá sofrer uma queda?

MM: Sim. Na minha opinião isso acabará por acontecer, inevitavelmente.

PF: Mas justifica isso com o aumento da produção mundial também?

MM: Não, apenas devido à especulação nacional. Não só por parte da distribuição! Muitos produtores limitam-se a embalar fruto, sem triagem. Na minha opinião todo o produtor deveria ser consumidor, ou agir enquanto consumidor na hora de embalar. Como costumo dizer, nem o produtor é masoquista nem o distribuidor é alquimista.

PF: E haverá espaço para a sobrevivência dos produtores?

MM: Penso que sim, não posso falar por todos… Poderá haver um problema com o escoamento do produto para alguns produtores, principalmente aqueles que não têm Câmaras de Frio nas explorações e que não estão dispostos a ter trabalho com embalamento, mas acredito que há muitos produtores muito bem preparados, já com os canais de escoamento garantidos e todo o processo bem delineado e salvaguardado. O mais importante é não terem pressa e não queimarem etapas. É necessário investir naquilo que realmente faz falta.

PF: Que é…?

MM: As plantas, o seu cuidado, a sua instalação, e o solo. O fruto vai ser o resultado destes parâmetros.

PF: Quantas horas por dia trabalha na exploração?

MM: No inverno são menos horas, cerca de 4/5 horas, no verão chega com facilidade às 12 horas.

PF: Diz-se que um dos aspetos positivos da cultura do mirtilo é o facto de se poder conciliar com outro emprego. Considera isto exequível?

MM: Acho difícil. Na minha opinião não é possível ter uma cultura de mirtilo a tempo parcial. Há vários fatores numa exploração que precisam de acompanhamento contínuo e exigem bastantes horas.

 Por: João Duarte Barbosa, in AGROTEC 11 (suplemento Pequenos Frutos)