EntoGreen cria valor com desperdícios agrícolas e recurso a insetos

Texto e Fotos: Catarina Monteiro

Criada em 2014 com o objetivo de trazer a economia circular para o setor agroalimentar, a Entogreen recorre a insetos e aos desperdícios agrícolas para produção de concentrados proteicos para alimentação animal.

entogreen tech@Portugal

“Cerca de 30% do que é produzido a nível de vegetais não chega aos clientes finais, são desperdiçados”, começa por explicar à Agrotec Daniel Murta, um dos responsáveis pela Entogreen, durante o evento Tech@Portugal: Do conhecimento ao mercado. A empresa de Santarém protagoniza um dos mais e 100 projetos de inovação para a indústria que compuseram a exposição realizada na passada quinta-feira, no Porto.

“O que fazemos é utilizar larvas e insetos que convertem cebolas e outros vegetais (bananas, maçãs, alfaces, por exemplo) que não foram consumidos na sua forma original, mas podem alimentar duas linhas de produtos finais: os fertilizantes orgânicos (ou seja, os subprodutos voltam aos agricultores) e nutrientes para animais”, explica Daniel Murta. 

A Entogreen domesticou a espécie “mosca soldado negro” para produzir um concentrado proteico, “com 70% de proteína”, utilizado como substituto da farinha de peixe, para alimentação de peixe, e da soja. “Este é um produto inovador que ainda não existe em muitos mercados internacionais. São apenas três as fábricas que existem para este tipo de produção, como a que pretendemos começar a construir até final deste ano”, revela o responsável. 

Durante os cerca de cinco dias em que vivem, as moscas soldado negro acasalam e põem ovos que são depois incubados numa ração específica para larvas juvenis. Após cinco dias as larvas são inoculadas em subprodutos vegetais e passados 15 dias dão origem a um dos produtos finais da Entogreen (o fertilizante). Depois disso, as larvas são ainda “separadas, cozidas e trituradas e passam por um processo fabril para produção do concentrado proteico - produto principal da Entogreen que serve como substituto de farinha de peixe - e do óleo de inseto, que também pode ser utilizado na alimentação animal ou na cosmética. 

“Acabamos com produtos finais de valor acrescentado feitos com recurso a subprodutos, diminuímos a necessidade de importação, quer sejam nutrientes para plantas quer sejam para animais - e conseguimos também criar um novo setor produtivo em Portugal que é o da criação de insetos”, sublinha Daniel Murta.

Fábrica começa a ser construída este ano

Até ao final do ano, a empresa pretende lançar a primeira pedra da sua unidade fabril, no distrito de Santarém, com o objetivo de atingir uma produção de 2500 toneladas de concentrado proteico por ano. A empresa prevê absorver cerca de 3000 toneladas de subprodutos alimentares por mês. 

“O nosso objetivo é encontrar formas de nutrir os animais de uma forma mais eficiente, com uma fonte proteica mais sustentável. Há que lembrar que a Europa é deficitária em mais de 70% das fontes protéicas para alimentação animal, ou seja, estamos reféns dos outros continentes. No caso de Portugal o caso é pior, mais de 90% da soja que consumimos é importada. É por isso muito importante encontrar alguma autonomia nestas fontes nutricionais, nomeadamente a proteína”, conclui Daniel Murta.

A Entogreen está também na origem da Portugal Insect (em maio de 2018), associação portuguesa de produtores de insetos que conta já com nove associados.