As cinzas na Agricultura

Desde que há história agrícola que se transmite a ideia do efeito benéfico das cinzas nas culturas, fosse resultado das queimadas de florestas ou mesmo das cinzas das lareiras. A cinza é, em si, o fertilizante perfeito em termos de proporções pois, excetuando o azoto, que se perde totalmente com a queima da matéria orgânica, e algum enxofre que se pode volatilizar, a cinza concentra em si todos os nutrientes que uma planta pode necessitar na proporção quase exata das suas necessidades.

Por: Bernardo Madeira | Engenheiro Agrónomo e Diretor da Revista AGROTEC

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Ironicamente, Portugal, embora não sendo país rico, também tem desperdiçado grandes oportunidades e recursos. Disso é exemplo a visita que efetuei há uma meia dúzia de anos a um… parque de cinzas.

Este lugar, no cimo de um monte, aparentando uma caótica paisagem marciana, com largas dezenas de montes de cinza, alguns ainda fumegantes, era um aterro onde se encontravam centenas de toneladas de cinzas de madeira de uma central de biomassa florestal que, todos os dias, produz em média 10 a 20 toneladas de cinza e que, na falta de melhor ideia, em vez de serem valorizadas, se tornavam num encargo a fazer desaparecer da vista, pagando para tal ilusionismo.

As cinzas das caldeiras de biomassa são excelentes recursos para a agricultura, uma vez que não apresentam poluentes ou contaminantes exóticos, resultando da simples queima de madeira, tão puras como as cinzas da nossa lareira, e tão variáveis como a natureza da própria madeira.

E são recursos normalmente muito económicos, chegando a pagar-se apenas o custo de transporte e não do produto.

Na análise que acompanha e ilustra este pequeno texto, temos a composição das cinzas de uma caldeira de biomassa de uma fábrica de pasta de papel, portanto, predominantemente desperdícios da preparação de toras de eucalipto.

O maior constituinte da cinza que é, em si, um extrato seco, é o potássio. Representa cerca de 70% do seu peso. Ao mesmo tempo que é um nutriente de primeira importância, destaca a importância de dosear com alguma cautela a cinza nos solos que sejam, já por si, ricos em potássio, conhecida que é a sua interação com outros nutrientes de igual carga catiónica.

Porém, na maior parte dos casos, o potássio está igualmente em falta na maioria dos solos e a cinza é uma forma extremamente económica de substituir a aplicação de fertilizantes.

Em segundo lugar, destaca-se o elevado teor em cálcio presente nas cinzas, cerca de 10% do seu peso, ou seja, por cada 10 toneladas estamos a dosear cerca de 1 tonelada de cálcio. Este cálcio, muitas vezes na forma óxido e hidróxido, acaba conferindo às cinzas um bom poder alcalinizante, o que, na maioria dos nossos solos é, também, uma constante preocupação e necessidade dos agricultores.

Quase sempre esquecemos que as plantas são muito ricas e necessitadas em cálcio. Como a sua presença ou ausência não se nota nas culturas com baixas exigências em termos de produtividade, é esquecido em extremo, porém, nas lições de agronomia e em todos os manuais vemos referido que o cálcio é a base da fertilidade dos solos…

O facto de a cinza ter simultaneamente potássio em elevada proporção e cálcio, previne-nos a ocorrência do antagonismo do potássio pelo cálcio, que por vezes ocorre quando as calagens são demasiado fortes.

Por fim, vemos na cinza uma importante recuperação de fósforo, particularmente interessante no caso de cinzas de madeira, uma vez que pelas suas raízes muito profundas há uma reciclagem dos nutrientes que retorna da profundidade para a superfície para um novo ciclo vital. O fósforo, no caso em análise, representa 8% quando expresso como pentóxido de fósforo.

Leia este artigo na íntegra na edição n.º 18 da edição impressa da Revista AGROTEC.

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