Crise do Leite já levou ao abandono de 250 produtores em 2015

A FENALAC - Federação Nacional das Cooperativas de Leite e Laticínios é clara: 250 produtores de leite nacionais já abandonaram a atividade em 2015, as importações de leite somam 164 milhões de euros sendo que a ministra da Agricultura e do Mar revela-se «indiferente e insensível à crise que afeta o setor».

Em comunicado, a Federação refere que desde o princípio de 2015, o «mercado lácteo mundial tem assistido a uma quebra acentuada, em função da acumulação de oferta de leite nas principais regiões produtoras (Europa, EUA, Austrália e Nova Zelândia) e da quebra de procura mundial, em particular devido ao embargo Russo aos produtos lácteos europeus».

Estes fatores conjugados originaram uma quebra acentuada dos preços pagos ao produtor em toda a Europa, os quais atingiram em maio valores «perigosamente próximo dos custos de produção e, por essa razão, pouco sustentáveis».

Para a FENALAC, «Portugal não tem sido uma exceção a este panorama, com a agravante de ser um dos países da UE com maior crescimento da produção (+5% no primeiro trimestre de 2015), facto que pressiona adicionalmente a remuneração da matéria-prima. Com efeito, as nossas estimativas apontam para que 250 produtores de leite já tenham abandonado a atividade em 2015».

«Obviamente, o fim do sistema de quotas leiteiras na UE e a consequente liberalização do setor, ocorrido a 31 de março último, contribuiu sobremaneira para o aumento dos excedentes de leite, fragilizando em particular os países periféricos, com condições naturais mais difíceis para a produção de leite», acrescentam a Federação.

Além disso, «os operadores cooperativos associados da FENALAC assumiram uma atitude responsável e proactiva na tentativa de estabilizar o mercado, implementando cortes autoimpostos na produção dos respetivos produtores até ao final de 2015, os quais devem variar entre os -5% e os -10%, em relação ao primeiro semestre de 2015».

Noutra vertente, a FENALAC, em conjunto com os parceiros setoriais, iniciou a preparação de uma campanha de promoção do leite, visando contrariar a quebra de consumo registada nos últimos anos, cujas causas são de ordem diversa mas «que exigem uma ação vigorosa e determinada».

«Ainda assim, estas medidas carecem de atitudes complementares por parte dos restantes operadores da fileira», apela.

«Destacámos a Distribuição, na medida em que continua a importar leite e produtos lácteos em grande escala, quando na maior parte dos casos existe disponibilidade nacional para tal. Valores oficiais (do INE) indicam que apenas nos cinco primeiros meses de 2015 as importações de produtos lácteos já somam 164 milhões de euros», adianta a FENALAC.

«Este comportamento é desastroso para a economia nacional, pois representa produção nacional que não é escoada e uma pressão acrescida sobre a rentabilidade da produção comercializada. Além disso, frequentemente regista-se uma concorrência pouca leal sobre as marcas nacionais, pois as importações são, em grande medida, excedentes de outros países comercializados com a marca da Distribuição e cujo preço não reflete racionalmente os custos de produção», vinca a entidade.

Por tudo isto, a FENALAC apela à tutela que promova medidas concretas de apoio aos produtores de leite, a exemplo de outros países da UE, «sendo de destacar o pacote de ajuda à pecuária ontem anunciando em França, na ordem dos 600 milhões de euros, além de uma mensagem clara à Distribuição de aposta na produção nacional».

«Assistimos com particular perplexidade à passividade da senhora ministra da Agricultura e do Mar em relação à atual crise que afeta o setor, a qual traduz uma inexplicável indiferença e insensibilidade», critica.

«Finalmente, importa que a nível comunitário seja definitivamente iniciada um debate sério quanto à regulação do mercado lácteo europeu, no seguimento da cessação do regime de quotas leiteiras, pois as medidas até agora promovidas são claramente insuficientes», conclui a FENALAC.

A FENALAC recorda que existem em Portugal cerca de 6500 produtores, sendo que a produção de leite representava 730 milhões de euros em 2013, o equivalente a 31% da produção animal e a 13% da produção agrícola.

A indústria do leite e lacticínios apresenta um volume de vendas de 1,3 mil milhões de euros, sendo o segmento mais importante (15%) da Indústria Alimentar.

A criação de emprego direto e indireto do setor lácteo deverá atingir os 50 mil postos, sendo de destacar que a maior parte dos quais estão em zonas rurais altamente carenciadas do ponto de vista económico e social, reforçando assim a importância dos mesmos na fixação das populações.

O universo da FENALAC foi responsável pela recolha de 863 mil toneladas de leite em 2013 (66% do total do continente), proveniente de 3200 produtores de leite associados.