“Temos ambições muito grandes para Portugal nos próximos anos”

Entrevista a Nuno Simões, Diretor de Operações South EMEA da Driscoll´s

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A Driscoll´s é uma empresa 100% familiar, originária da Califórnia, Estados Unidos da América, que já vai na 4ª geração da família. Grupo Empresarial dedicado exclusivamente à produção e comercialização de pequenos frutos vermelhos, atingiu o ano passado mais de 2.000 milhões de dólares de faturação a nível mundial, 180 milhões dos quais na Europa. Tem uma implantação global quer de mercados de destino como regiões de produção, que vão desde várias zonas nos E.U.A., México, América do Sul, China, Austrália, Nova Zelândia, Holanda, Portugal, Marrocos, Dinamarca, África do Sul, Egito, Inglaterra, entre outras. Fomos saber mais sobre a empresa e a sua visão para Portugal.

Pequenos Frutos: Quais os frutos que a Driscoll´s comercializa?

N.S.: Framboesas, amoras, morangos e mirtilos.

P.F.: Quais os frutos que são mais comercializados em Portugal?

N.S.: O mercado português é um mercado ainda bastante sazonal e pouco desenvolvido no que toca aos frutos vermelhos, assim, para nós Driscoll’s, assume-se como um mercado interessante e até importante mas não é um mercado estratégico, ou seja, nós servimos em Portugal clientes de distribuição de grandes superfícies, lojas gourmet, alguns restaurantes, etc. mas o que é de salientar é que, o que vendemos cá dentro não pesa muito comparativamente com aquilo que é a parte exportada da nossa produção nacional. Para que se possa ter uma ideia, mais de 80% do morango produzido em Portugal e mais de 95% das outras frutas são para exportação. Portugal fica com muito pouco do que cá produzimos. Há geografias para nós que são fundamentalmente geografias de destino (para venda), como os países escandinavos ou da Península Arábica, e outros países onde fundamentalmente produzimos, como o caso de Portugal, Espanha, Marrocos, que são países que, apesar de terem alguma venda local, são sobretudo exportadores. Por isto, também acho que somos uma organização que contribui bastante para a economia portuguesa, na medida em que somos uma empresa claramente exportadora.

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P.F.: Porque escolheram Portugal como um dos primeiros países para se instalarem na Europa? Qual a importância de Portugal na operação europeia da empresa?

N.S: Por duas razões. A primeira é cultural e quase afetiva: quando os responsáveis da empresa procuravam locais para produzir na Europa, várias questões foram importantes para a seleção, mas uma delas, que teve bastante preponderância na escolha, foi a cultura portuguesa e a capacidade dos portugueses em adaptar-se a coisas novas, o que acaba por ser um aspeto interessante. Também por isto, quando ouvimos falar da agricultura nacional como uma agricultura pouco desenvolvida, não podemos deixar de achar que isso não corresponde à realidade, de maneira nenhuma.

Temos neste momento em Portugal exemplos de agricultura muito sofisticada tecnicamente e até com tecnologia de ponta; disto mesmo são exemplos, os nossos produtores mas noutras indústrias também se encontram casos semelhantes e até mais fortes do que o que afirmo. Por exemplo, somos um tremendo produtor de arroz, um importantíssimo produtor de tomate de indústria, além daqueles nichos que toda a gente conhece, dos frutos secos do nordeste, etc. Portugal tem que deixar de ser visto como um país de pouca significância e de baixa capacidade de produção agrícola, porque isso não é verdade. Para ter uma ideia, de toda a produção que temos nas regiões da Europa, Médio Oriente e África, Portugal produz 40% da totalidade de framboesas da Driscoll´s.

A outra razão foi fundamentalmente climática, nós encontramos na Costa Alentejana, onde ainda hoje temos baseada uma parte importante da nossa produção, condições climáticas que nos agradaram de sobremaneira. Entre Sines a Lagos, toda essa zona tem condições fantásticas: um clima ameno, solos de boa qualidade, uma água de grande qualidade… e foi aí que descobrimos a Califórnia da Europa. A região do Alentejo tem, de facto, condições edafoclimáticas muito parecidas com as que encontramos na Califórnia. E na região do Algarve, no sotavento algarvio, uma zona com condições muito boas para a produção de inverno e tudo isto fez com que Portugal se tornasse a escolha óbvia. Portugal é hoje um dos países mais importantes na estratégia europeia da Driscoll´s.

PF: Não tem receio que as alterações climáticas venham a influenciar o posicionamento da Driscolls no futuro? A empresa tem estado atenta ao evoluir da situação?

N.S.: Como sabe, as alterações climáticas passam-se a um ritmo relativamente lento, apesar de termos vindo a assistir, por culpa do Homem, a um potencial incremento das mesmas. Estamos preocupados e atentos, somos uma empresa que produz e insere-se em ambientes sustentáveis, temos essa consciência social e ambiental. Mas este ritmo lento, permite-nos conseguir adaptar as nossas variedades a essas mesmas alterações. Nós temos um programa de melhoramento genético, usando exclusivamente técnicas naturais, ou seja, nós não usamos aquilo que se chama manipulações genéticas, ou OGM´s, mas sim melhoramos as espécies de forma natural. Nesse melhoramento, temos em conta a adaptação às alterações climáticas.

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PF: Como é esse processo? Pode descrever-nos?

NS: Usemos o exemplo do morango: pegamos em duas plantas-mãe, uma que chamaremos “pai” e outra que chamaremos “mãe”. Na que chamamos “mãe”, vamos à flor e retiramos a parte masculina, onde está o pólen. No “pai”, recolhemos com um pincel o pólen e vamos pincelar a parte feminina da outra planta. Tão simples quanto isto. A partir daqui, vão dar frutos, que têm as sementes do morango, que são retiradas com uma técnica laboratorial muito cuidada e colocadas a germinar, e aí obtemos os filhos desse “pai” e dessa “mãe”. Portanto, nós não necessitamos de efetuar modificação genética para levar avante os nossos objetivos de melhoramento de produto.

PF: A Driscoll’s é conhecida por ter um programa fechado de melhoramento de cultivares de pequenos frutos. Porque se justifica esta estratégia?

NS: O facto de ser fechado está estritamente relacionado com a decisão de proteger a nossa propriedade intelectual e industrial, dado os elevados custos que estão implicados nesta atividade. Todas as variedades desenvolvidas pela Driscoll´s estão protegidas. E proteger porquê? Queremos proteger a diferença e queremos diferenciar-nos da concorrência. E proteger para nós significa também ter variantes com melhor performance, e isto não significa só mais produtivas: pode ser, para além disso, mais adaptadas a um determinado clima, e também – e isso é sem dúvida o mais importante para nós – variedades com melhor sabor. A nossa grande prioridade estratégica como empresa é produzir variedades absolutamente saborosas. A nossa missão, tentando traduzir para português como “deleitar” os nossos consumidores de forma contínua (“continually delight our berry consumers”), através de uma parceria forte com os nossos produtores e clientes. Este compromisso leva-nos a estar sempre a procurar novas variedades e novos sabores e, por isso, investimos muito dinheiro anualmente em programas de melhoramento. Temos mais de uma dezena de programas de melhoramento, dos quais três situam-se na Europa, um deles em Portugal: temos um importantíssimo campo de ensaio de mirtilos, talvez o segundo mais importante campo de ensaios do mundo.

PF: Porque é que um produtor deverá optar pela Driscoll´s?

NS: Adianto-lhe 3 tipos de vantagens. A primeira, é ter um parceiro integrado, que permite ao produtor focar-se na produção. Depois, nós fomentamos parcerias muito estreitas. Connosco, o produtor tem acesso a informação privilegiada, a um apoio técnico de grande qualidade, a tecnologia de ponta, e tem acesso a uma estrutura comercial que, de outro modo, ele não conseguiria ter. Nós temos um modelo de negócio totalmente integrado, o produtor só tem que se preocupar naquilo em que ele é especialista: produzir. Nós selecionamos e obtemos variedades, produzimos e entregamos as plantas que ele vai posteriormente produzir, durante a produção, damos acompanhamento próximo com a nossa equipa e, quando a produção está finalizada, nós vendemos o fruto. Portanto, o produtor apenas se preocupa com a produção e, mesmo nesse aspeto, damos apoio através dos nossos agrónomos, conselheiros técnicos e económicos. A terceira, e não menos importante, são as nossas variedades, que são normalmente reconhecidas pela melhor performance e não é só, como disse, mais produtividade, é também mais sabor, apresentando assim um excelente binómio preço/qualidade. Portanto, considero estes três fatores como muito importantes e que fazem o produtor querer trabalhar connosco.

PF: E um consumidor?

NS: Essa é fácil! (risos) É claramente o sabor! Existem três componentes que os frutos da Driscoll´s têm que ter, pois são os fatores que vão fazer a diferença para o consumidor: o aspeto primeiro, a condição durante, e o sabor depois. Se nós combinarmos estes três conceitos, temos aquilo a que chamamos na Driscoll´s de “deleitar” o consumidor.

PF: Quem pode ser produtor Driscoll’s? Como se faz a seleção?

NS: Existe um processo de seleção e conhecimento mútuos. O produtor tem que ter interesse e nós, com todo o respeito, temos que ter interesse também. O produtor tem que demonstrar capacidade técnica, alguma capacidade financeira – pois este é um negócio que pede investimento – e tem também que se identificar com os nossos valores, não basta ser tecnicamente capaz e financeiramente robusto, tem também que acreditar no modelo de negócio e apreciar este modelo de partilha e esta postura de “livro aberto”. Um produtor não deve ter problemas em dizer-nos os seus números, porque nós também não temos problemas em dizer os nossos.

PF: Mas existem “mínimos” predefinidos para um produtor se tornar parceiro?

NS: Não. Damos preferência a produtores localizados geograficamente em zonas que consideramos de maior interesse. Estamos a privilegiar muito os três pólos de produção em Portugal: Vale do Tejo, Costa Alentejana e o Sotavento Algarvio. Mas estamos também à procura de produtores em outras zonas, nomeadamente para aquele fruto que pede condições climáticas ligeiramente diferentes, o mirtilo. Mas não existem “mínimos”, seja de terreno ou outro, tudo é estudado caso a caso. Depende de vários fatores, desde a própria cultura até ao tipo de produção.

PF: Qual a relação da Driscoll´s com as Organizações de Produtores? Pode um produtor não associado usar variedades Driscoll´s?

NS: Uma vez que o produtor é selecionado, ele celebra um contrato e passa a trabalhar connosco, ganhando o direito a ter as nossas variedades. Em Portugal, existe uma particularidade, nós temos uma organização de produtores, a Lusomorango, onde o produtor pode decidir associar-se. A grande maioria dos nossos produtores associados pertencem a uma OP, seja a Lusomorango ou uma outra qualquer. E qual é a vantagem para o produtor? Em termos comunitários, existem benefícios e ajudas à produção e estas ajudas são maximizadas quando ele está associado a uma OP. Um produtor, quando está contratado connosco, mesmo que não esteja associado a uma OP, pode produzir as nossas variedades mas, se ele preferir, além disso, tirar benefícios das ajudas comunitárias, temos preparada uma plataforma, que é uma OP, baseada no Concelho de Odemira, que permite ao produtor ir buscar apoios de forma maximizada. Mas a ligação é sempre direta do produtor connosco, ou seja, é sempre celebrado um contrato com a Driscoll´s para se ter as variedades disponíveis.

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PF: Tem-se falado que o mercado europeu está a alterar os seus padrões de consumo de pequenos frutos. É verdade que se regista um aumento claro no consumo de mirtilo a nível global?

NS: Claramente, todos os pequenos frutos têm crescido muito. Se nós falarmos com os nossos clientes, nomeadamente os de grandes superfícies, a categoria dos pequenos frutos, dentro do setor das frutas e legumes, é a que regista um crescimento maior. Em alguns países, já é mais importante que a banana, que tradicionalmente era o segmento mais importante dentro do segmento das frutas e legumes. Neste momento, estamos a registar crescimentos muito importantes, apesar dos níveis de penetração nos lares serem ainda bastante baixos. De todos os pequenos frutos que comercializamos, o mirtilo é o que está a crescer mais. E há boas razões para isso, ele é um produto funcional por excelência em duas perspetivas: tem benefícios para a saúde ainda superiores às amoras, framboesas e morangos, e também porque o seu consumo é extremamente conveniente e prático. E posso adiantar que o seu crescimento, muitas das vezes, tem sido na ordem dos três dígitos

PF: E o mercado das framboesas, tem estagnado?

NS: Não temos sentido isso, temos registado crescimentos na ordem dos dois dígitos. O pequeno fruto que tem registado um crescimento menor é o morango.

PF: Marrocos poderá vir a substituir Portugal no abastecimento europeu, em contra estação?

NS: Não. Na Driscoll´s, nós temos uma estratégia para esses países, juntamente também com a Espanha, e são papéis diferentes a desempenhar, que não colidem entre si. Na nossa estratégia isso não é um problema. Nalgumas culturas, como algumas culturas hortícolas, e porque Marrocos tem uma mão-de-obra mais barata, pode torná-lo mais atrativo para alguns. Mas também não deixa de ser verdade que a sofisticação técnica em Portugal é muito superior.

PF: Porque é que a Driscoll’s não produz nem tem parceiros no Norte de Portugal? Não está nos planos da empresa?

NS: Está. Não posso adiantar muito para já, mas estamos em contacto com duas organizações de produtores do Norte de Portugal (acima do Mondego).

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PF: No universo Driscoll’s também há produção em modo biológico? Há mercados que valorizam essa produção? E em Portugal?

NS: Sim, nós temos produção biológica em vários países, nomeadamente nos E.U.A. E também Europa, simplesmente é ainda um nicho de mercado. E é um pouco triste quando comparo a realidade do consumo de produtos biológicos em Portugal, ou mesmo na Europa, com aquele que acontece, por exemplo, nos países escandinavos ou na América do Norte: a expressão é ainda muito reduzida. Eu penso que existem alguns fatores limitadores para o sucesso da agricultura biológica na Europa: a legislação que governa aquilo que é um produto biológico, que é muito mais complicada do que aquela, por exemplo, que existe nos E.U.A., a conjuntura económica e também pelo facto de sermos um mercado pouco desenvolvido, onde o consumidor ainda não está disposto a pagar o prémio de preço para consumir um produto biológico. É mais caro produzir em modo biológico do que convencional, porque este modo de produção tem um risco muito mais elevado. Por outro lado, e sei que vou ser polémico com esta afirmação, o produto biológico não é necessariamente mais seguro para a alimentação. Não é. A produção convencional, gerida de uma forma ética, profissional e racional é tão ou mais segura que a produção biológica, em termos de higiene e segurança alimentar. Isto é algo que pode ser difícil de entender para a maioria das pessoas mas, para nós, está tecnicamente muito estudado e entendido. A grande maioria dos processos e métodos de produção biológica é prática corrente na nossa produção convencional. Se a legislação de cá (Europa) fosse igual à dos E.U.A., seriamos classificados como produtores biológicos.

PF: Qual a área que a Driscoll´s planeia ocupar nos próximos anos em território português? Está em processo de expansão?

NS: Sim, estamos a crescer ativamente nas quatro culturas, com o mirtilo à cabeça. Nós temos ambições muito grandes para Portugal nos próximos anos.

PF: Portugal é dos países que mais tem crescido no universo da Driscoll´s?

NS: Na área geográfica que sou responsável, garantidamente, juntamente com Espanha e Marrocos, tem tido as taxas de crescimento mais altas. Portugal, um pouco mais na framboesa e mirtilo, Espanha no morango, Marrocos na framboesa de inverno e no morango… depende também da cultura.

PF: Alguns produtores Driscoll’s da região do Algarve expandiram muito as suas áreas de produção de framboesa de inverno. É uma tendência para os próximos anos a ser patrocinada pela Driscoll’s?

NS: A framboesa de inverno encontra, no Algarve, condições ímpares de produção. A sofisticação de técnicas usadas, juntamente com o clima ameno, coloca o Algarve numa posição privilegiada para a produção deste tipo de cultura.

PF: A Driscoll’s garante escoamento da fruta dos seus produtores. Estes só podem vender a produção à Driscoll’s? Como é encaminhada a produção?

NS: Sim, só nos podem vender a nós. Daí o modelo integrado. O nosso lucro vem da venda da fruta. A produção é encaminhada numa perspetiva de uma unidade de negócio Europa – Médio Oriente – África, sendo as estratégias de marketing definidas nessa base. A fruta produzida em Portugal sai para um largo número de países. Posso adiantar-lhe que, garantidamente, chega até Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Rússia, Hungria, Polónia, Emirados Árabes, Bahrein, Kuwait. Já chegou também a Hong Kong, Macau…

PF: Como está a investigação em Portugal no que diz respeito a pequenos frutos?

NS: Posso-lhe adiantar-lhe que, neste momento, as técnicas de produção de mirtilo mais avançadas do mundo estão em Portugal e na Califórnia e, na framboesa, temos dos produtores mais evoluídos do mundo.

Por: João Duarte Barbosa, in Pequenos Frutos 7