INIAV comercializa semente patenteada de Grão-de-Bico para França

No Laboratório Experimental do Iniav, que conta com 40 hectares de terreno com talhões de terra semeados com trigo, aveia, chícharos, papoilas ou forragem, foram desenvolvidas cerca de 37 obtenções varietais de trigo, triticale, aveia, grão-de-bico, ervilha ou fava, significando que podem ser incluídas no catálogo nacional de variedades e são comercializadas por quem compra a “patente”. O INIAV de Elvas desenvolve no campo a chamada pré-base que é, depois, adquirida por empresas que, por sua vez, a multiplica e vende aos agricultores. Foi o que aconteceu com o grão-de-bico, cultura que em 2013 ocupava apenas 786 hectares de terra em Portugal, quase cinco vezes menos do que o feijão.

“A Europa é deficitária em proteína e importa muita soja, feijão, grão. E desde os anos 1960 e 1970, com os acordos bilaterais, abandonou-se um pouco estas culturas. Mas agora há uma necessidade cada vez maior de diversificação. E em Portugal temos um grande programa de produção interna. A ideia é desenvolver as espécies mais adaptadas às condições do território e substituir as importações”, detalha Benvindo Maçãs.

O grão-de-bico é uma proteína barata e com grande potencial de crescimento. Antes, “todos a faziam no Alentejo”, conta o responsável. Mas sem incentivos, os produtores deixaram esta cultura de lado, incapazes de competir com as versões mais baratas dos grandes produtores mundiais, onde a Índia e o México se destacam.

O INIAV de Elvas criou três variedades tradicionais específicas (elvar, elixir e eldorado) que se adaptam ao Mediterrâneo, região onde “chove quando não faz falta e quando a temperatura sobe, sobe muito”, detalha Benvindo Maçãs. As alterações climáticas e o aumento da população trouxeram novos desafios a esta indústria que, agora, tem de produzir mais, mas usado menos recursos ambientais. Os franceses da Arterris, uma cooperativa da comuna de Castelnaudary, compraram ao INIAVE as variedades tradicionais e querem apostar no cultivo de grão-de-bico no seu país, diminuindo a dependência do exterior.

Grão de Bico - Variedades

“Tem corrido tão bem que França já está a exportar para o Reino Unido onde a presença da comunidade paquistanesa é grande e tem grande apetência por este produto”, revela Benvindo Maçãs. O ano passado foram vendidas em França 440 toneladas de sementes certificadas e, entretanto, os próprios produtores portugueses também quiseram testar em solo nacional a variedade do INIAV e compraram 100 toneladas aos franceses da Arterris. “Trata-se da Agro-Inovação, um grupo de investidores que há cerca de três anos se começou a interessar pela diversificação. A indústria alimentar importa tudo e as nossas variedades distinguem-se pela forma e sabor”, diz Benvindo Maçãs.

O potencial negócio para o Estado português faz-se com o sucesso das vendas das sementes: quanto mais agricultores as semearem, mas dinheiro se encaixa. O exclusivo das três variedades foi vendido por um “preço simbólico” que ronda os quatro a cinco mil euros. É na valorização comercial que se faz dinheiro. “Nós recebemos royalties [espécie de taxa de utilização] sobre o valor a que as sementes são comercializadas”, continua. A elvar, por exemplo, já está semeada em 630 hectares de terra em Portugal e, em Setembro, estará pronta a ser vendida ao consumidor final.

Mas o trabalho do INIAV de Elvas não se esgota no melhoramento da semente. “Somos obrigados a fazer uma selecção de manutenção e a entregar para o ano semente pré-base” actualizada, explica. A investigação é, por isso, contínua. Para chegar a uma variedade são precisos entre dez a 12 anos e, depois, é preciso continuar a estudar a semente, ver como reage a alterações de clima ou pragas, por exemplo.

É nesta estação de Elvas que também se estuda a melhor cevada para os cervejeiros nacionais produzirem malte, ou o trigo mole que pode ser usado na indústria alimentar, num jogo que Benvindo Maçãs chama de “variabilidade genética”. Trata-se de responder à cada vez maior necessidade de comida em todo o mundo, obtendo mais grão, mais alimento, com menos água e recorrendo às espécies tradicionais. E, ao mesmo tempo, investigar com o foco nas necessidades do mercado e do consumidor.

“Hoje temos de nos preocupar com o território, encontrar as soluções para as necessidades dos produtores, produzir o máximo. Se não for competitivo, o território é abandonado. Só não há abandono se for possível ganhar dinheiro. Pode ser muito bonito produzir mais grão em território nacional, mas se não for competitivo não há solução”, ilustra.

O trabalho de um “melhorador de plantas” está, por isso, nos bastidores da produção. É ele quem vai quase todos os dias ao campo, “falar com as plantas”. “Tem de se apaixonar, observar. E há cada vez menos pessoas a quererem ser melhoradores de plantas. Temos de nos aperceber o que se passa em cada talhão. Não se pode fazer isto à distância”, diz Benvindo Maçãs, lembrando que o aperto orçamental vivido nas estruturas do Estado também afectou a unidade de Elvas. Com mais de 50 funcionários, sofre com a falta de investigadores.

O INIAV de Elvas tem no total 356 hectares onde testa sementes, seleccionando as melhores. Tem origem no Posto Agrário de Elvas, criado por decreto a 30 de Junho de 1915 e instalado em terremos cedidos pelo Sindicato Agrícola. De acordo com informação disponível no site do INIAVE, o principal objectivo do posto era fazer estudos sobre pomicultura, olivicultura, viveiros e seleccionar novas linhas de cereais. Este trabalho de melhoramento de plantas é reconhecido numa portaria de 1901 que “determina a realização de hibridações de trigo entre variedades nacionais e estrangeiras”.

Fonte: Jornal Público.