“A investigação que fazemos no ISA está entre as melhores que se fazem no mundo”

entrevista

Entrevista a Amarilis de Varennes, Presidente do ISA

“A investigação que fazemos no ISA está entre as melhores que se fazem no mundo”

A Presidente do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa sabe do que fala. Graduou-se em Engenharia Agronómica no ISA, onde é professora catedrática desde 1993, e está agora ao leme da instituição. É uma empresa difícil e exigente numa escola centenária com tradição entre as melhores.

AGROTEC: Como descreveria a importância do ISA no contexto do ensino universitário das engenharias em Portugal?

Amarilis de Varennes: O Instituto Superior de Agronomia, integrado o ano passado na Universidade de Lisboa, que se torna assim a maior instituição universitária portuguesa, é a mais antiga escola de Ciências Agrárias do país. Foi a escola-mãe, era a única existente até há 40 anos atrás e foi dela que se graduaram todos os docentes que depois foram formar outras escolas e institutos politécnicos.

Portanto, esta é a casa-mãe, continua a ser a maior e a mais prestigiada escola nesta área.
Aqui faz-se o ensino ligado às ciências agrárias, à engenharia agronómica propriamente dita, mas também à engenharia zootécnica e alimentar. Depois, algumas outras licenciaturas, mestrados e doutoramentos que têm a ver com o cerne da nossa investigação mas que já se sobrepõem um pouco com áreas que existem em outras escolas, o caso da Biologia e da Engenharia do Ambiente.

Obviamente que a divisão em dois ciclos principais, licenciatura e mestrado, na sequência da reforma de Bolonha, permitiu também que haja movimentação de estudantes que escolhem fazer o primeiro ciclo numa escola e o segundo em outra. Quer isto dizer que nós enviamos alunos para outras escolas para fazerem o mestrado, da mesma forma que recebemos alunos com formação distinta da nossa mas que decidem fazer o mestrado aqui. Associado a esta formação dentro da escola temos a preocupação de promover o intercâmbio de estudantes com universidades estrangeiras e por isso participamos em vários programas europeus, o mais conhecido dos quais o Erasmus. Além disso, por via de mecenato que recebemos, temos bolsas para alunos irem para o Brasil. O fluxo está ainda muito desequilibrado, pois recebemos mais alunos do que os que somos capazes de enviar, ao contrário do Erasmus, onde recebemos mais de 60 alunos por ano e enviamos cerca de metade. É complicado, pois os alunos Erasmus não são contabilizados em termos de financiamento das universidades e costuma-se dizer que Portugal, sendo um país pobre, está, neste caso, a financiar o ensino de alunos muitas vezes oriundos de países ricos.

AG: Sendo o ISA uma instituição de referência em Portugal, que importância tem no panorama internacional universitário?

AM: Essa importância prende-se com a investigação.
O ensino universitário não pode deixar de estar desligado da investigação e a que nós fazemos em áreas de ponta é da melhor que se faz no Mundo. A Universidade de Lisboa é considerada a terceira melhor do espaço ibero-americano, depois da Universidade de S. Paulo e da Universidade de Barcelona. Isto dá uma panorâmica da qualidade da investigação e do ensino, pois quem não faz investigação não sabe o que é ensinar. A nível do intercâmbio dos estudantes, somos nós que selecionamos as universidades com as quais fazemos parcerias e protocolos de intercâmbio.

É uma seleção dinâmica, pois se verificarmos que o nível dos alunos que recebemos não se enquadra no nosso nível de exigência, podemos sempre não renovar os protocolos.
Mas temos tido boas experiências.

AG: A investigação de que nos fala é transferida de modo útil para o tecido empresarial?

AM: Esse é um ponto importante, ou seja, em que medida – e é difícil estabelecer um limite – a nossa investigação é fundamental ou é aplicada. Diria que entre 60 a 80% da investigação que fazemos é aplicada. A nível da nossa engenharia alimentar não conheço nenhuma linha de investigação que não possa ter aplicações, sejam elas mais diretas ou um pouco mais remotas, a nível da indústria.

Muitos dos projetos de investigação já são feitos em parceria com a indústria ou mesmo encomendados pela indústria. Isso é um pouco mais complicado a nível de outras áreas, nomeadamente engenharia agronómica, porque as associações dos agricultores, em geral, não têm grande dimensão e não estão ainda mentalizadas para pagar investigação. Há exceções nessa área, por exemplo com empresas produtoras de fertilizantes em que temos bastante investigação feita por encomenda, informação essa que em alguns casos é sigilosa e tem depois limitações à sua utilização, se bem que temos tido a sorte de a maioria dos nossos parceiros empresariais terem permitido a publicação dos resultados.

Portanto, não há dúvida que a maior parte da investigação é aplicada e direcionada, quer para a agricultura, quer para a floresta, quer para as indústrias alimentares. A nível de arquitetura paisagista, que é uma componente importante nesta escola e da qual ainda não falei, temos investigação que é muito aplicada mas ainda pouco reconhecida. Estamos agora envolvidos num projeto para completar um mapa digital de ordenamento do território de Portugal Continental. Temos, por exemplo, cálculos de zonas de cheia que são melhores do que os utilizados na maior parte dos municípios. Este mapa estará disponível para todos na Internet. É feito com dinheiros públicos e por isso deverá estar disponível para todos.

AG: Como avalia do ponto de vista técnico, as novas gerações de agricultores?

AM: Podemos dividir a agricultura num ‘antes’ e num ‘depois’. O ‘antes’ ainda perdura em pequenas propriedades familiares destinadas ao autoabastecimento, com baixo nível tecnológico. Depois.Temos pequenas, médias e grandes propriedades com pessoas já com formação, que têm uma ótica muito diferente.
O nosso ensino de agronomia está a ter uma procura crescente e diria que a saída profissional é de 100%. Eu dou aulas a esses alunos e posso dizer que, no segundo ano, já muitos deles estão a pensar na exploração que querem montar. E já estão a escolher as culturas e a sonhar em fazer algo por conta própria no futuro. Alguns têm terras dos avós ou dos pais e têm o sonho de montar a sua empresa agrícola.

AG: É possível medir o grau de sucesso desses novos empreendedores?

AM: O grande problema atual é os alunos terem consciência que escoar o produto é o mais difícil. Eles sabem produzir bem, dominam a componente técnica, mas se não tiverem o escoamento adequado, não vão ter sucesso. Portanto, antes de montar qualquer empresa agrícola há que pensar o que se vai produzir e a quem vender. Hoje em dia é o segredo do negócio.

AG: Mas tem a medida desse sucesso?

AM: A verdade é que os maiores agricultores portugueses saíram desta casa. Não se pode pensar em ser um grande agricultor sem se ter formação. Hoje em dia, a formação nesta área está um pouco dividida do ponto de vista regional e, portanto, já não temos a influência que tínhamos em todo o país, o que é normal, pois surgiram outras universidades.

O norte do país corresponderá a pessoas que são formadas na UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) e, no centro, a pessoas formadas por nós. É aqui que temos a maior produção agrícola nacional, o Ribatejo e a zona Oeste. Depois, o Alentejo é influenciado, quer pela Universidade de Évora, quer por nós.

AG: Portanto, a formação tem que incluir uma forte componente empresarial...

AM: Sem dúvida. É uma área um pouco difícil de transmitir numa sala de aula. Algumas licenciaturas incluem um estágio em meio empresarial, outras não. De qualquer modo, em conjunto com os antigos alunos, formamos um programa de mentorado.
Ou seja, é possível aos melhores alunos, aos mais interessados, escolher um mentor que os vai acompanhando ao logo do seu percurso, partilhando a sua própria experiência no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo temos palestras e conferências, desafios e até prémios relacionados com esse tema. A 12 de novembro ocorreu aqui uma nova edição do CarrierChallenge, precisamente nesse sentido de preparar as pessoas para uma carreira e reconhecer quem teve sucesso. É uma forma de os nossos alunos poderem aprender com os erros e os sucessos que essas pessoas tiveram no seu trajeto.

AG: A sustentabilidade entra hoje em todas as áreas de atividade, incluindo a agricultura e a indústria. Que desafios trouxe para o ensino?

AM: Tradicionalmente, os agricultores, que não tinham formação superior, já eram os guardiões da terra. Se a deixassem degradar estavam a comprometer a sua sobrevivência e a dos seus filhos. Portanto, a preocupação de manter a qualidade dos solos existiu desde o princípio da agricultura, o que não invalida que não tenham ocorrido grandes desastres ao longo da história, como na zona da mesopotâmia, que hoje é um deserto, em parte por causa da má condução de rega. A agricultura ganha mau nome devido ao aumento da população que obrigou, na mesma área, a produzir muito mais, forçando a intensidade dos fatores de produção, o uso de adubos sintéticos e pesticidas. Mas, nessa altura, não havia outra forma de resolver o problema da fome.

Mesmo a agricultura biológica não produz o suficiente para alimentar todos. Ora, com o avançar dos conhecimentos técnicos começamos a reconhecer a má utilização dos solos, o excesso de aplicação de fertilizantes, que muitos pesticidas eram altamente tóxicos e perigosos.
Portanto, houve uma evolução que corresponde a um salto tecnológico e não a um retrocesso, permitindo substituir os pesticidas por outras práticas, nomeadamente pelo que chamamos hoje de “produção integrada”, que inclui a luta biológica, o melhoramento de plantas e o melhor uso dos adubos sintéticos.

Enquanto aumentou o desperdício, o lixo e as embalagens, e também a procura de carne, fomos capazes de usar melhor os adubos minerais e percebemos a necessidade, que é também uma oportunidade, de usar os resíduos orgânicos provenientes dos animais, aplicando-os de volta no solo, isto é, fechando o ciclo dos nutrientes em lugar de os desperdiçar nos aterros sanitários.

É um novo salto tecnológico que está a ocorrer e que também está a ser incentivado pelo crescente custo da energia, que se tornou uma componente importante da produção agrícola. É também necessário minimizar esse custo. Há agora preocupações que não existiam antes, associadas à conservação do solo, utilizando menos alfaias do que no passado e alfaias agrícolas diferentes, nomeadamente fazendo sementeira direta sobre os restos da cultura anterior, aumentando desse modo o teor da matéria orgânica do solo.

AG: Essas preocupações têm sido incorporadas no ensino?

AM: Obviamente. Nós temos sido os motores e os promotores dessas inovações e, muitas vezes, demonstramos depois as vantagens da sua incorporação numa exploração agrícola.

AG: Que dificuldades identifica no ensino e que expectativas tem para o futuro nesta área?

AM: Desde há muitos anos tem havido um subfinanciamento sistemático do ensino superior, quer universitário quer politécnico, que se acentuou nos anos de crise. O Orçamento Geral do Estado não paga, sequer, os salários dos funcionários públicos envolvidos no ensino. Numa escola como esta, a situação ainda é mais grave, pois temos 100 hectares para manter com financiamento zero! Isto quer dizer que tudo é mantido num nível mínimo. Os edifícios históricos estão a ruir e não temos capacidade financeira para obras. É um património valioso que se está a perder.

Além da Tapada da Ajuda, temos ainda o Jardim Botânico, que pertence ao Instituto, e cujo estado de conservação é também inferior ao que desejaríamos. Não vejo grandes perspetivas de melhorar, a crise económica vai demorar a passar e não acredito que este ou outro governo vá mudar a atitude. O Ensino Superior tem resistido sem perder qualidade, fruto do cada vez maior esforço dos seus professores e funcionários. Nos últimos 10 anos perdemos mais de metade dos professores e ganhamos o dobro dos alunos. Imagine o esforço que esse desequilíbrio demonstra. Mas tudo tem um limite. Esta sangria não pode continuar. Já perdemos valências importantes em áreas científicas que não queríamos perder. Não podemos perder mais sob pena de afetar a qualidade do ensino.

In AGROTEC nº 13

Por: Carlos Alberto Costa
Fotos: Arquivo do ISA e Carlos Alberto Costa